05/12/2011 08h44
Foi encaminhado hoje ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em Brasília, pelo Promotor de Justiça Sidney Fiori, uma reclamação contra o Tribunal de Justiça do Tocantins, pelo fato deste não ter cumprido uma decisão do próprio CNJ, lançada em 2009, que determinou a implantação das equipes interdisciplinares para dar suporte às varas da área da Infância e Adolescência.
Os Juízes, salvo os da Capital, com competência para processar e julgar as ações e procedimentos referentes aos direitos das crianças e adolescentes não recebem nenhum auxílio de equipes interprofissionais, o que dificulta e compromete as decisões.
O MPE já havia oficiado o Tribunal de Justiça do Tocantins em 2008 sobre o assunto e em junho de 2009 uma moção de apoio à criação das equipes foi encaminhada para a Presidência do TJTO por meio do Centro de Apoio Operacional da Criança e do Adolescente, o que acarretou a contratação temporária de alguns profissionais em 2010, mas os contratos não foram renovados.
Em Araguaína, por exemplo, mais de 50 processos de adoção, habilitação ao cadastro de adotantes, guarda, tutela, destituição do poder familiar e outros mais estão parados por falta dessa estrutura mínima que deveria existir desde a promulgação do ECA, em 1990.
O MPE pediu providências para que seja determinado ao Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins a implantação das equipes interdisciplinares na Comarca de Araguaína e em outras onze comarcas de 3ª entrância, que deverão ser compostas, no mínimo, por um psicólogo e por um assistente social.
Fonte: http://www.jornalstylo.com.br/noticia.php?l=09c310ed5eeb84bc586872673f7f539b
Silvana do Monte Moreira, advogada, sócia da MLG ADVOGADOS ASSOCIADOS, presidente da Comissão Nacional de Adoção do IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família, Diretora de Assuntos Jurídicos da ANGAAD - Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção, Presidente da Comissão de Direitos das Crianças e dos Adolescentes da OAB-RJ, coordenadora de Grupos de Apoio à Adoção. Aqui você encontrará páginas com informações necessárias aos procedimentos de habilitação e de adoção.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Lançamento da Cartilha de Adoção da OAB SP e da Frente Parlamentar de Adoção
A Comissão Especial de Direito à Adoção, atualmente presidida pelo Dr. Carlos Berlini, lançará no dia 07 de dezembro de 2011, às 19 horas, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a sua CARTILHA DE ADOÇÃO, que está sendo oferecida aos operadores do direito, operadores sociais e à sociedade em geral.
Na mesma cerimônia será também lançada a Frente Parlamentar de Adoção e Pró-Convivência Familiar da ALESP que congrega vários Deputados Paulistas em torno do tema da criança abandonada e a família.
A situação de abandono infantil ataca hoje mais de 145 milhões de crianças em todo o mundo e já é tida por especialistas como a quarta emergência humanitária mundial ao lado da fome, da doença e da guerra. São as crianças as maiores vítimas de tais emergências humanitárias e no Brasil – infelizmente – a situação não é muito mais animadora, embora esforços sociais e governamentais estejam sendo destinados a fim de modificar esta realidade.
Diante deste quadro, queremos que esta Cartilha sobre o tema da Adoção, além de instrumento de trabalho cotidiano, possa impulsionar tantos quantos querem se dedicar à causa da infância na busca incessante de garantir a cada criança e adolescente uma família que os eduque e os ame como filhos.
O que deseja uma criança em situação de abandono e que está à espera de outra família? Deseja somente “renascer filho”. Eis aqui o seu direito, eis aqui o nosso dever: garantir-lhe a dignidade de renascer no lar de alguém que a ame. A OAB SP, por sua Comissão Especial de Direito à Adoção, quer responder a esta necessidade e a este direito. Esta cartilha, viva e aberta à colaboração de todos, quer ser modestamente um destes instrumentos para atingirmos tal objetivo: que toda criança seja filho.
Evento:
Lançamento da Cartilha de Adoção da OAB SP e da Frente Parlamentar de Adoção e Pró-Convivência Familiar da Assembleia Legislativa
Local:ALESP
Palácio 9 de Julho - Auditório Paulo Kobayashi
Av. Pedro Álvares Cabral, 201 - Ibirapuera
Para maiores informações:
carlosberlini@ig.com.br
(11) 9448.3028
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Silvana do Monte Moreira
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Brasil tem cinco mil crianças e adolescentes à espera de adoção
Dados do CNJ revelam também qual é o perfil mais procurado pelos pais
02/12/2011 - 08h00 | O Globo
SÃO PAULO - Há cerca de cinco mil crianças e adolescentes prontas para serem adotadas em todo Brasil, para cerca de 27 mil pessoas interessadas na adoção. Em alguns estados, caso de Santa Catarina, a relação entre pretendentes e crianças para serem adotadas chega a 14 para um. Os dados são do Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O cadastro revela uma preferência por bebês recém-nascidos, do sexo feminino, de cor branca e sem nenhuma doença. De acordo com esses números, 36% dos pretendentes adotariam somente crianças brancas, 80% pensam em adotar somente uma criança e 50% buscam por uma criança de no máximo dois anos de idade. Apenas 33% mostraram-se indiferentes em relação à origem racial.
- Isso ocorre porque se busca esse perfil. Por quê não são adotadas todas as crianças que não têm mais ligação com o poder familiar? Porque os pretendentes, no geral, não querem as mais velhas, não querem irmãos e não querem encarar uma criança com doença - diz o coordenador do Cadastro Nacional de Adoção, Nicolau Lupianhes.
- O modelo no Brasil ainda é o de satisfazer o desejo dos pais em ter filhos - diz Silvana do Monte Moreira, diretora jurídica da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad). Segundo ela, é preciso entender que a adoção ocorre para garantir um lar para as crianças que não o possuem:
- É o modelo dos países desenvolvidos que começa a chegar no Brasil - diz Silvana, ela mesma mãe adotiva.
- Eu sou do Rio, mas adotei minha filha no Nordeste. Não fiz nenhuma escolha, nada. Adotei uma criança linda, de três anos. Naquela época, porém, as famílias nordestinas só queriam adotar no Sul. Aos poucos estamos mudando esse quadro.
O perfil escolhido pelos pais, porém, não é o único entrave para a adoção no Brasil, segundo especialistas. Para a psicóloga, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autora de seis livros sobre adoção, Lídia Weber, ainda há uma multidão de crianças em abrigos pelo Brasil.
- A verdade é que não se sabe ao certo quantas crianças e adolescentes estão abrigadas. Fala-se em 30, 80 mil. E muitas delas estão há anos abrigadas quando a Lei Nacional de Adoção determina que a criança só pode ficar dois anos no abrigo - explica.
Segundo Lídia, isso ocorre porque há uma espécie de limbo na destituição do poder familiar.
- O Eca (Estatuto da Criança e do Adolescente) e a Lei de Adoção afirmam que a prioridade é manter o vínculo familiar. Concordo, mas essa tentativa não pode ser eterna, caso contrário a criança se institucionaliza no abrigo e perde as chances de adoção.
Silvana, da Angaad, tem uma visão semelhante. Para ela, a Lei de Adoção estabelece um critério subjetivo ao juiz ao determinar que a citação da família seja feita até a última possibilidade.
- É um critério pessoal. Varia de juiz para juiz. É preciso um pouco mais de agilidade nesse ponto - diz Silvana.
No Congresso Nacional, tramitam dezenas de projetos que alteram a Lei Nacional de Adoção. Todos, ainda em fase de análise nas comissões da casa.
Fonte: http://moglobo.globo.com/integra.asp?txtUrl=/pais/brasil-tem-cinco-mil-criancas-adolescentes-espera-de-adocao-diz-cnj-3367055
PS: Correção - 3 dias e não 3 anos na seguinte frase: Adotei uma criança linda, de três anos.
Silvana do Monte Moreira
Advogada - Infância, Juventude e Família
Coordenadora dos Grupos de Apoio à Adoção Ana Gonzaga I e II
Diretora Jurídica da ANGAAD – Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção
Silvana.mm@globo.com
http://www.silvanammadv.blogspot.com/
02/12/2011 - 08h00 | O Globo
SÃO PAULO - Há cerca de cinco mil crianças e adolescentes prontas para serem adotadas em todo Brasil, para cerca de 27 mil pessoas interessadas na adoção. Em alguns estados, caso de Santa Catarina, a relação entre pretendentes e crianças para serem adotadas chega a 14 para um. Os dados são do Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O cadastro revela uma preferência por bebês recém-nascidos, do sexo feminino, de cor branca e sem nenhuma doença. De acordo com esses números, 36% dos pretendentes adotariam somente crianças brancas, 80% pensam em adotar somente uma criança e 50% buscam por uma criança de no máximo dois anos de idade. Apenas 33% mostraram-se indiferentes em relação à origem racial.
- Isso ocorre porque se busca esse perfil. Por quê não são adotadas todas as crianças que não têm mais ligação com o poder familiar? Porque os pretendentes, no geral, não querem as mais velhas, não querem irmãos e não querem encarar uma criança com doença - diz o coordenador do Cadastro Nacional de Adoção, Nicolau Lupianhes.
- O modelo no Brasil ainda é o de satisfazer o desejo dos pais em ter filhos - diz Silvana do Monte Moreira, diretora jurídica da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad). Segundo ela, é preciso entender que a adoção ocorre para garantir um lar para as crianças que não o possuem:
- É o modelo dos países desenvolvidos que começa a chegar no Brasil - diz Silvana, ela mesma mãe adotiva.
- Eu sou do Rio, mas adotei minha filha no Nordeste. Não fiz nenhuma escolha, nada. Adotei uma criança linda, de três anos. Naquela época, porém, as famílias nordestinas só queriam adotar no Sul. Aos poucos estamos mudando esse quadro.
O perfil escolhido pelos pais, porém, não é o único entrave para a adoção no Brasil, segundo especialistas. Para a psicóloga, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autora de seis livros sobre adoção, Lídia Weber, ainda há uma multidão de crianças em abrigos pelo Brasil.
- A verdade é que não se sabe ao certo quantas crianças e adolescentes estão abrigadas. Fala-se em 30, 80 mil. E muitas delas estão há anos abrigadas quando a Lei Nacional de Adoção determina que a criança só pode ficar dois anos no abrigo - explica.
Segundo Lídia, isso ocorre porque há uma espécie de limbo na destituição do poder familiar.
- O Eca (Estatuto da Criança e do Adolescente) e a Lei de Adoção afirmam que a prioridade é manter o vínculo familiar. Concordo, mas essa tentativa não pode ser eterna, caso contrário a criança se institucionaliza no abrigo e perde as chances de adoção.
Silvana, da Angaad, tem uma visão semelhante. Para ela, a Lei de Adoção estabelece um critério subjetivo ao juiz ao determinar que a citação da família seja feita até a última possibilidade.
- É um critério pessoal. Varia de juiz para juiz. É preciso um pouco mais de agilidade nesse ponto - diz Silvana.
No Congresso Nacional, tramitam dezenas de projetos que alteram a Lei Nacional de Adoção. Todos, ainda em fase de análise nas comissões da casa.
Fonte: http://moglobo.globo.com/integra.asp?txtUrl=/pais/brasil-tem-cinco-mil-criancas-adolescentes-espera-de-adocao-diz-cnj-3367055
PS: Correção - 3 dias e não 3 anos na seguinte frase: Adotei uma criança linda, de três anos.
Silvana do Monte Moreira
Advogada - Infância, Juventude e Família
Coordenadora dos Grupos de Apoio à Adoção Ana Gonzaga I e II
Diretora Jurídica da ANGAAD – Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção
Silvana.mm@globo.com
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
FILHOS DE ADOÇÃO - Alessandra Rosa Carrijo, 29 anos, enfermeira
Por Liliane Oraggio Cocchiaro e Carla Leirner
''Se eu não tivesse sido adotada, não teria as oportunidades que tive''
''Não sei quase nada do que aconteceu comigo antes dos dois anos de idade. Só sei que nasci em Florianópolis, em 1975. Até ser adotada, fiquei com uma senhora humilde chamada Dulce*, que morava em São Paulo. Mas ninguém sabe dizer como fui parar na casa dela.
Meus pais adotivos eram vizinhos de Dulce. Sempre que minha mãe passava em frente à casa dela, me via no quintal, brincava comigo e, de vez em quando, passávamos horas juntas. Esses períodos foram se tornando cada vez maiores e o afeto cresceu entre nós.
Meus pais estavam casados há pouco tempo e não tinham tentado ter filhos ainda. Tanto que minha irmã só nasceu nove anos depois. Minha mãe conta que, desde a primeira vez que me viu, sentiu muita afinidade e o desejo de ficar comigo.
as Dulce não queria abrir mão da minha guarda. Depois de alguns meses, meus pais conseguiram convencê-la de que podiam ficar comigo. Tinham melhores condições financeiras, eram jovens e gostavam muito de mim. Ela cedeu, o processo judicial da adoção foi concluído com sucesso. Quando eu tinha 4 anos, meus pais saíram de São Paulo para morar em Mato Grosso.
''Perdoei a rejeição quando compreendi que minha mãe biológica queria para mim um destino melhor do que o dela''
Nunca ninguém anunciou que eu era adotada. Desde pequena, me lembro da minha mãe falando para eu rezar para 'o papai e a mamãe que estavam no céu'. Foi a maneira que ela encontrou para dizer que eu tinha uma outra família. O fato de meus pais adotivos contarem a verdade desde o comecinho foi muito importante. Imagino que seria um susto enorme saber da adoção quando fosse mais velha. Outra coisa que ajudou muito a viver essa situação com naturalidade foi o fato de sermos parecidos fisicamente. Ninguém diz que não sou filha legítima. Sou muito parecida com minha irmã e com meus avós.
Todos esses pontos a favor e todo acolhimento que recebi não evitaram incômodos, principalmente na adolescência. Tinha no pensamento uma pergunta fixa: por pior que pudesse ser a situação financeira de minha mãe, como ela teve coragem de me deixar? Me sentia muito rejeitada, tinha vergonha de falar que era adotada e, apesar de nunca ter sofrido preconceito, cresci mantendo esse assunto em segredo.
Aos 17 anos, saí do Mato Grosso para fazer faculdade de enfermagem no Paraná. No meu curso, trabalhei em locais muitos pobres e encontrei mulheres que tiveram meia dúzia de filhos e não tinham a menor condição de criá-los. Isso me fez entender, e perdoar, minha mãe biológica. Compreendi que ela não quis ficar comigo porque queria que eu tivesse uma vida melhor e a chance de ter um destino diferente do dela. Aos poucos, as mágoas do passado se dissiparam. Hoje, vejo a adoção como um ato de amor e não de rejeição, e falo do assunto abertamente. Em 2000, voltei para São Paulo para fazer pós-graduação. Estou muito tranqüila, sou independente, tenho namorado. No futuro, penso em casar, ter filhos e em adotar.
Tenho sentido vontade de recuperar cada pedaço do meu passado. O que aconteceu comigo até os 2 anos? Como vim parar em São Paulo? Será que minha mãe biológica está viva? Ainda não dei o primeiro passo em busca dessas respostas porque quero amadurecer essa idéia antes de começar. Essa procura não significa que não ame meus pais. Ao contrário, devo tudo a eles e tenho certeza de que estarão junto comigo nessa procura. Acho que todo filho adotivo tem necessidade, e direito, de saber mais sobre suas origens e sua história. Isso dá mais segurança para seguir em frente.''
FOTO: ROGÉRIO CAVALCANTI/REALIZAÇÃO E PRODUÇÃO VALÉRIA MASSI CABELO E MAQUIAGEM: KIKO DE LIMA/AGRADECIMENTOS: TORO RESTAURANTE
*OS NOMES FORAM TROCADOS PARA PROTEGER A PRIVACIDADE DAS PESSOAS CITADAS PELOS ENTREVISTADOS
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-5,00.html
''Se eu não tivesse sido adotada, não teria as oportunidades que tive''
''Não sei quase nada do que aconteceu comigo antes dos dois anos de idade. Só sei que nasci em Florianópolis, em 1975. Até ser adotada, fiquei com uma senhora humilde chamada Dulce*, que morava em São Paulo. Mas ninguém sabe dizer como fui parar na casa dela.
Meus pais adotivos eram vizinhos de Dulce. Sempre que minha mãe passava em frente à casa dela, me via no quintal, brincava comigo e, de vez em quando, passávamos horas juntas. Esses períodos foram se tornando cada vez maiores e o afeto cresceu entre nós.
Meus pais estavam casados há pouco tempo e não tinham tentado ter filhos ainda. Tanto que minha irmã só nasceu nove anos depois. Minha mãe conta que, desde a primeira vez que me viu, sentiu muita afinidade e o desejo de ficar comigo.
as Dulce não queria abrir mão da minha guarda. Depois de alguns meses, meus pais conseguiram convencê-la de que podiam ficar comigo. Tinham melhores condições financeiras, eram jovens e gostavam muito de mim. Ela cedeu, o processo judicial da adoção foi concluído com sucesso. Quando eu tinha 4 anos, meus pais saíram de São Paulo para morar em Mato Grosso.
''Perdoei a rejeição quando compreendi que minha mãe biológica queria para mim um destino melhor do que o dela''
Nunca ninguém anunciou que eu era adotada. Desde pequena, me lembro da minha mãe falando para eu rezar para 'o papai e a mamãe que estavam no céu'. Foi a maneira que ela encontrou para dizer que eu tinha uma outra família. O fato de meus pais adotivos contarem a verdade desde o comecinho foi muito importante. Imagino que seria um susto enorme saber da adoção quando fosse mais velha. Outra coisa que ajudou muito a viver essa situação com naturalidade foi o fato de sermos parecidos fisicamente. Ninguém diz que não sou filha legítima. Sou muito parecida com minha irmã e com meus avós.
Todos esses pontos a favor e todo acolhimento que recebi não evitaram incômodos, principalmente na adolescência. Tinha no pensamento uma pergunta fixa: por pior que pudesse ser a situação financeira de minha mãe, como ela teve coragem de me deixar? Me sentia muito rejeitada, tinha vergonha de falar que era adotada e, apesar de nunca ter sofrido preconceito, cresci mantendo esse assunto em segredo.
Aos 17 anos, saí do Mato Grosso para fazer faculdade de enfermagem no Paraná. No meu curso, trabalhei em locais muitos pobres e encontrei mulheres que tiveram meia dúzia de filhos e não tinham a menor condição de criá-los. Isso me fez entender, e perdoar, minha mãe biológica. Compreendi que ela não quis ficar comigo porque queria que eu tivesse uma vida melhor e a chance de ter um destino diferente do dela. Aos poucos, as mágoas do passado se dissiparam. Hoje, vejo a adoção como um ato de amor e não de rejeição, e falo do assunto abertamente. Em 2000, voltei para São Paulo para fazer pós-graduação. Estou muito tranqüila, sou independente, tenho namorado. No futuro, penso em casar, ter filhos e em adotar.
Tenho sentido vontade de recuperar cada pedaço do meu passado. O que aconteceu comigo até os 2 anos? Como vim parar em São Paulo? Será que minha mãe biológica está viva? Ainda não dei o primeiro passo em busca dessas respostas porque quero amadurecer essa idéia antes de começar. Essa procura não significa que não ame meus pais. Ao contrário, devo tudo a eles e tenho certeza de que estarão junto comigo nessa procura. Acho que todo filho adotivo tem necessidade, e direito, de saber mais sobre suas origens e sua história. Isso dá mais segurança para seguir em frente.''
FOTO: ROGÉRIO CAVALCANTI/REALIZAÇÃO E PRODUÇÃO VALÉRIA MASSI CABELO E MAQUIAGEM: KIKO DE LIMA/AGRADECIMENTOS: TORO RESTAURANTE
*OS NOMES FORAM TROCADOS PARA PROTEGER A PRIVACIDADE DAS PESSOAS CITADAS PELOS ENTREVISTADOS
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-5,00.html
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FILHOS DE ADOÇÃO - Sandra Terezinha Pinto, cabeleireira, 54 anos
Por Liliane Oraggio Cocchiaro e Carla Leirner
''Toda a família sabia que eu era ilegítima, menos eu''
''Quando tinha 24 anos, durante uma briga que tive com minha mãe, ela gritou que eu era adotiva. Foi como levar um soco no estômago. Mas ela logo desmentiu e disse que era brincadeira, como se isso não fosse importante. Perguntei para meus irmãos e eles também negaram que eu fosse adotada. A partir daquele dia, comecei a perceber a diferença da cor de pele e cabelo, já que sou mais clara e tenho traços diferentes do resto da família. Mas resolvi me desligar do assunto e acreditar neles.
Só aos 37 anos, quando estava grávida da minha terceira filha, soube mesmo que tinha sido adotada. Um dia, minha mãe disse que tinha uma história para me contar e me falou sobre a adoção. Fiquei muito chocada, foi como se o chão tivesse se aberto sob meus pés. Na hora, apenas perguntei: 'Por que você não me contou antes?'. 'Medo', foi a resposta dela. Temia que eu ficasse com raiva ou a rejeitasse. Achei esse pavor, que durou tanto tempo, totalmente sem sentido. Tenho o maior carinho e respeito por ela, que me deu amor, me ensinou coisas boas, como a honestidade, a sinceridade e um jeito respeitoso de tratar os outros. Nessa mesma conversa, sugeri esquecer o assunto.
Mesmo assim, depois de dar à luz chorei muito no hospital. Enquanto amamentava meu bebê, me perguntava: 'Por que minha mãe biológica me rejeitou? Por que não tive a chance de mamar em seu colo?'.
Fazia o maior esforço para deixar isso de lado. Queria só cuidar da minha filha recém-nascida, mas minha mãe insistiu em contar toda a verdade. Ela morava no interior de Minas Gerais, onde era dona de uma pensão. Tinha se hospedado lá uma jovem grávida de seis meses, conhecida como Marilda*, com o namorado. No meio da noite, a moça passou mal, pois havia tomado uma injeção para abortar. Ela tinha 19 anos e fez isso porque o filho era fruto de uma traição. Por pura compaixão, minha mãe adotiva, que se chama Dora*, se propôs a ficar com a criança, mesmo tendo 32 anos e cinco filhos. Depois de muita insistência, Marilda aceitou. Quando eu estava com 14 dias, ela me entregou embrulhada numa fralda e desapareceu.
''Soube que era adotada aos 37 anos, quando estava grávida da minha terceira filha. Foi um grande choque''
Alguns meses após a revelação, resolvi ir atrás da minha mãe biológica. Consegui o telefone de Marilda, que era uma pessoa importante no interior de Goiás. Eu estava empolgada com a possibilidade de conhecer minha mãe de sangue, de recuperar um pouco do passado. A primeira ligação foi um pesadelo. Apresentei-me como sua filha e ela me perguntou: 'O que você quer depois de tantos anos ?'. Sem nenhum carinho, disse que me ligava outra hora e desligou. Senti raiva e uma decepção imensa. Se soubesse que ela ia ser tão fria, nunca a teria procurado.
Dias depois, ela ligou mais receptiva e justificou sua reação por causa da surpresa. Daí em diante, me ligava todo dia e passamos a conversar amigavelmente. Um mês depois do primeiro contato, ela veio para São Paulo me conhecer. Outra decepção. Pensei que fosse ganhar um abraço, mas ela me estendeu a mão. Mesmo com toda essa falta de jeito, ficou cinco dias na minha casa. Esperava que ela me amasse como amo minhas filhas. Isso não aconteceu, ela nunca me pediu desculpas, mas me tratava cordialmente.
Nos vimos várias vezes. Eram encontros agradáveis. Teve até uma festa em Goiás para que eu conhecesse toda a família. Mas, no último encontro, tivemos uma briga horrorosa, porque Marilda ficou com ciúme de eu ter pego uma carona com o marido dela e me acusou de estar interessada nele. Essa desconfiança era fora de propósito. Fiquei ofendida e me senti traída. Ela pediu que eu sumisse. Ao que respondi: 'Você me mandou embora uma vez, e está fazendo isso de novo'.
Fiquei oito anos sem vê-la. Fui reencontrá-la numa cama de hospital, quando ela teve um derrame, do qual ainda não se recuperou. Não senti nada, só mágoa. Me arrependo de ter ido procurá-la e de tê-la conhecido. Ela não acrescentou nada de bom na minha vida, só trouxe dor, angústia e rejeição. Essa história mexeu muito comigo e tem momentos em que sinto um enorme vazio. Acredito que os bebês sentem desde quando estão na barriga da mãe se são bem-vindos ou não. Acho que sempre vou carregar a dor da rejeição.
Mas nada disso impediu que eu tivesse uma vida estruturada, uma profissão, três filhas que eu adoro e o amor de toda minha família. Nos damos muito bem e sou o xodó dos meus irmãos. Muita gente me pergunta se perdoei minha mãe adotiva por me contar a verdade. Perdoar o quê? Se foi ela quem me ensinou a andar, a falar, a ser o que eu sou. Sempre vou admirá-la.''
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-4,00.html
''Toda a família sabia que eu era ilegítima, menos eu''
''Quando tinha 24 anos, durante uma briga que tive com minha mãe, ela gritou que eu era adotiva. Foi como levar um soco no estômago. Mas ela logo desmentiu e disse que era brincadeira, como se isso não fosse importante. Perguntei para meus irmãos e eles também negaram que eu fosse adotada. A partir daquele dia, comecei a perceber a diferença da cor de pele e cabelo, já que sou mais clara e tenho traços diferentes do resto da família. Mas resolvi me desligar do assunto e acreditar neles.
Só aos 37 anos, quando estava grávida da minha terceira filha, soube mesmo que tinha sido adotada. Um dia, minha mãe disse que tinha uma história para me contar e me falou sobre a adoção. Fiquei muito chocada, foi como se o chão tivesse se aberto sob meus pés. Na hora, apenas perguntei: 'Por que você não me contou antes?'. 'Medo', foi a resposta dela. Temia que eu ficasse com raiva ou a rejeitasse. Achei esse pavor, que durou tanto tempo, totalmente sem sentido. Tenho o maior carinho e respeito por ela, que me deu amor, me ensinou coisas boas, como a honestidade, a sinceridade e um jeito respeitoso de tratar os outros. Nessa mesma conversa, sugeri esquecer o assunto.
Mesmo assim, depois de dar à luz chorei muito no hospital. Enquanto amamentava meu bebê, me perguntava: 'Por que minha mãe biológica me rejeitou? Por que não tive a chance de mamar em seu colo?'.
Fazia o maior esforço para deixar isso de lado. Queria só cuidar da minha filha recém-nascida, mas minha mãe insistiu em contar toda a verdade. Ela morava no interior de Minas Gerais, onde era dona de uma pensão. Tinha se hospedado lá uma jovem grávida de seis meses, conhecida como Marilda*, com o namorado. No meio da noite, a moça passou mal, pois havia tomado uma injeção para abortar. Ela tinha 19 anos e fez isso porque o filho era fruto de uma traição. Por pura compaixão, minha mãe adotiva, que se chama Dora*, se propôs a ficar com a criança, mesmo tendo 32 anos e cinco filhos. Depois de muita insistência, Marilda aceitou. Quando eu estava com 14 dias, ela me entregou embrulhada numa fralda e desapareceu.
''Soube que era adotada aos 37 anos, quando estava grávida da minha terceira filha. Foi um grande choque''
Alguns meses após a revelação, resolvi ir atrás da minha mãe biológica. Consegui o telefone de Marilda, que era uma pessoa importante no interior de Goiás. Eu estava empolgada com a possibilidade de conhecer minha mãe de sangue, de recuperar um pouco do passado. A primeira ligação foi um pesadelo. Apresentei-me como sua filha e ela me perguntou: 'O que você quer depois de tantos anos ?'. Sem nenhum carinho, disse que me ligava outra hora e desligou. Senti raiva e uma decepção imensa. Se soubesse que ela ia ser tão fria, nunca a teria procurado.
Dias depois, ela ligou mais receptiva e justificou sua reação por causa da surpresa. Daí em diante, me ligava todo dia e passamos a conversar amigavelmente. Um mês depois do primeiro contato, ela veio para São Paulo me conhecer. Outra decepção. Pensei que fosse ganhar um abraço, mas ela me estendeu a mão. Mesmo com toda essa falta de jeito, ficou cinco dias na minha casa. Esperava que ela me amasse como amo minhas filhas. Isso não aconteceu, ela nunca me pediu desculpas, mas me tratava cordialmente.
Nos vimos várias vezes. Eram encontros agradáveis. Teve até uma festa em Goiás para que eu conhecesse toda a família. Mas, no último encontro, tivemos uma briga horrorosa, porque Marilda ficou com ciúme de eu ter pego uma carona com o marido dela e me acusou de estar interessada nele. Essa desconfiança era fora de propósito. Fiquei ofendida e me senti traída. Ela pediu que eu sumisse. Ao que respondi: 'Você me mandou embora uma vez, e está fazendo isso de novo'.
Fiquei oito anos sem vê-la. Fui reencontrá-la numa cama de hospital, quando ela teve um derrame, do qual ainda não se recuperou. Não senti nada, só mágoa. Me arrependo de ter ido procurá-la e de tê-la conhecido. Ela não acrescentou nada de bom na minha vida, só trouxe dor, angústia e rejeição. Essa história mexeu muito comigo e tem momentos em que sinto um enorme vazio. Acredito que os bebês sentem desde quando estão na barriga da mãe se são bem-vindos ou não. Acho que sempre vou carregar a dor da rejeição.
Mas nada disso impediu que eu tivesse uma vida estruturada, uma profissão, três filhas que eu adoro e o amor de toda minha família. Nos damos muito bem e sou o xodó dos meus irmãos. Muita gente me pergunta se perdoei minha mãe adotiva por me contar a verdade. Perdoar o quê? Se foi ela quem me ensinou a andar, a falar, a ser o que eu sou. Sempre vou admirá-la.''
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-4,00.html
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FILHOS DE ADOÇÃO - Cléia Maria Pires Nogueira, 41 anos, empresária
Por Liliane Oraggio Cocchiaro e Carla Leirner
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''Meus pais adotivos foram morar no interior e nunca mais vi minha mãe biológica''
''Vivi com minha mãe até os quatro anos. Ela veio de Minas Gerais para São Paulo com apenas 16 anos e arrumou emprego de doméstica. Durante o período em que trabalhava em uma casa de classe média, engravidou e eu nasci. Logo decidiu arrumar outro trabalho e a família que a empregava quis ficar comigo, pois achava que ela não teria condições de me criar. A casa era estruturada, minha nova mãe passava dos 50 anos e o caçula dos sete filhos já tinha 14 anos. Minha mãe deixou o emprego, mas até os 6 anos vinha me visitar toda semana. Tenho lembranças muito vagas desse tempo.
Um dia, de repente e sem me explicarem nada, meus pais adotivos decidiram mudar para o interior de São Paulo e não deixaram o novo endereço para minha mãe biológica. Ninguém mais falou do assunto e nunca mais a vi. Dois anos depois de mudar de cidade, voltamos para São Paulo e fomos morar em outra casa. Sem referências, minha mãe não tinha mais como me encontrar.
Desde muito cedo soube que era adotada. Quando aprendi a escrever, assinava Cléia Maria Pires (Nogueira Emprestado). Era uma referência à família que me acolheu. Aos 8 anos, fui adotada oficialmente, e tirei a palavra 'Emprestado' do sobrenome.
''Tive tudo do bom e do melhor, mas a falta de amor e as dúvidas sobre o meu passado me marcaram para sempre''
Mesmo sabendo da minha origem, essa questão nunca foi fácil para mim. Qualquer criança adotada, mesmo tratada com amor, carrega uma carga de rejeição, e isso é ainda mais forte quando entra numa família como a minha, onde o afeto era raro, inclusive entre eles. A única pessoa mais amorosa era meu pai. Na infância, ele me levava para passear. Tenho boas recordações dele e sofri muito quando morreu, há 15 anos. Mas mesmo ele era bastante retraído, as palavras e os momentos de carinho não aconteciam todo dia.
Reconheço que tive tudo do bom e do melhor em termos de educação, saúde e alimentação. Mas cresci sem beijo, colo e abraço. Isso acabou interferindo na minha vida amorosa. Fiz muitas escolhas erradas, porque sempre procurava nos namorados o pai que não tive, o carinho do qual fui privada. Bastava me fazer um cafuné que eu já ficava perdidamente apaixonada. Amadureci em relação a isso. Tenho namorado e ainda não penso em casar ou ter filhos.
Também pesou muito o preconceito que sofri dentro da família. Era tratada como a filha da empregada. Como meus irmãos já eram grandes quando fui adotada, eu tinha sobrinhos da mesma idade, com os quais eu não podia brincar porque minhas cunhadas não permitiam. Com as minhas irmãs era diferente, nos dávamos bem. Mas faziam questão de realçar nossas diferenças físicas com brincadeiras que eu considerava agressivas. Diziam que eu tinha bumbum e nariz de negro, zombavam do meu busto e do meu quadril grandes. Fiquei complexada, principalmente na adolescência. Ficava angustiada por ser adotada e por ser morena, diferente da família.
Hoje isso é mais ameno, mas me sinto constrangida em algumas situações, por não saber do meu passado. Um dos momentos mais embaraçosos é quando vou ao médico e não sei responder se tenho tendência a alguma doença hereditária ou casos de câncer e diabetes na família. Às vezes me pergunto: 'O que teria acontecido comigo se eu não tivesse sido adotada? Teria sobrevivido?'. Mas também me questiono se trocaria o conforto material por colo de mãe e pai. Essas são mais perguntas que continuam sem resposta.
Apesar de tudo que passei e de minha história ser marcada pela falta de amor, tenho certeza de que sou privilegiada, porque fui bem-criada, alimentada e educada. Comecei a trabalhar aos 16 anos como vendedora em uma loja, não fiz faculdade, mas montei uma pequena empresa de informática e vivo bem.''
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-3,00.html
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''Meus pais adotivos foram morar no interior e nunca mais vi minha mãe biológica''
''Vivi com minha mãe até os quatro anos. Ela veio de Minas Gerais para São Paulo com apenas 16 anos e arrumou emprego de doméstica. Durante o período em que trabalhava em uma casa de classe média, engravidou e eu nasci. Logo decidiu arrumar outro trabalho e a família que a empregava quis ficar comigo, pois achava que ela não teria condições de me criar. A casa era estruturada, minha nova mãe passava dos 50 anos e o caçula dos sete filhos já tinha 14 anos. Minha mãe deixou o emprego, mas até os 6 anos vinha me visitar toda semana. Tenho lembranças muito vagas desse tempo.
Um dia, de repente e sem me explicarem nada, meus pais adotivos decidiram mudar para o interior de São Paulo e não deixaram o novo endereço para minha mãe biológica. Ninguém mais falou do assunto e nunca mais a vi. Dois anos depois de mudar de cidade, voltamos para São Paulo e fomos morar em outra casa. Sem referências, minha mãe não tinha mais como me encontrar.
Desde muito cedo soube que era adotada. Quando aprendi a escrever, assinava Cléia Maria Pires (Nogueira Emprestado). Era uma referência à família que me acolheu. Aos 8 anos, fui adotada oficialmente, e tirei a palavra 'Emprestado' do sobrenome.
''Tive tudo do bom e do melhor, mas a falta de amor e as dúvidas sobre o meu passado me marcaram para sempre''
Mesmo sabendo da minha origem, essa questão nunca foi fácil para mim. Qualquer criança adotada, mesmo tratada com amor, carrega uma carga de rejeição, e isso é ainda mais forte quando entra numa família como a minha, onde o afeto era raro, inclusive entre eles. A única pessoa mais amorosa era meu pai. Na infância, ele me levava para passear. Tenho boas recordações dele e sofri muito quando morreu, há 15 anos. Mas mesmo ele era bastante retraído, as palavras e os momentos de carinho não aconteciam todo dia.
Reconheço que tive tudo do bom e do melhor em termos de educação, saúde e alimentação. Mas cresci sem beijo, colo e abraço. Isso acabou interferindo na minha vida amorosa. Fiz muitas escolhas erradas, porque sempre procurava nos namorados o pai que não tive, o carinho do qual fui privada. Bastava me fazer um cafuné que eu já ficava perdidamente apaixonada. Amadureci em relação a isso. Tenho namorado e ainda não penso em casar ou ter filhos.
Também pesou muito o preconceito que sofri dentro da família. Era tratada como a filha da empregada. Como meus irmãos já eram grandes quando fui adotada, eu tinha sobrinhos da mesma idade, com os quais eu não podia brincar porque minhas cunhadas não permitiam. Com as minhas irmãs era diferente, nos dávamos bem. Mas faziam questão de realçar nossas diferenças físicas com brincadeiras que eu considerava agressivas. Diziam que eu tinha bumbum e nariz de negro, zombavam do meu busto e do meu quadril grandes. Fiquei complexada, principalmente na adolescência. Ficava angustiada por ser adotada e por ser morena, diferente da família.
Hoje isso é mais ameno, mas me sinto constrangida em algumas situações, por não saber do meu passado. Um dos momentos mais embaraçosos é quando vou ao médico e não sei responder se tenho tendência a alguma doença hereditária ou casos de câncer e diabetes na família. Às vezes me pergunto: 'O que teria acontecido comigo se eu não tivesse sido adotada? Teria sobrevivido?'. Mas também me questiono se trocaria o conforto material por colo de mãe e pai. Essas são mais perguntas que continuam sem resposta.
Apesar de tudo que passei e de minha história ser marcada pela falta de amor, tenho certeza de que sou privilegiada, porque fui bem-criada, alimentada e educada. Comecei a trabalhar aos 16 anos como vendedora em uma loja, não fiz faculdade, mas montei uma pequena empresa de informática e vivo bem.''
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-3,00.html
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Silvana do Monte Moreira
às
18:49
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FILHOS DE ADOÇÃO - Marcos Costa, 38 anos, maquiador
''Tenho muita sorte. Por ter nascido e por ter sido adotado por uma família maravilhosa''
''Meus pais adotivos tinham três filhos adultos e viviam em Goiânia. Como todos estavam demorando a casar e os netos não vinham, optaram pela adoção. Uma amiga da família soube que uma jovem estava doando o filho por não ter condições de criá-lo. Na hora, minha mãe foi me buscar na casa dessa amiga. Cheguei em casa com dois dias de vida, embrulhado em uma toalha de rosto. Cresci sem sentir diferença de tratamento em relação aos meus irmãos. Ao contrário, fui o único a estudar em escola particular e a ter as melhores roupas, pois, quando me adotaram, meus pais estavam numa boa situação financeira. Jamais fui tratado como ilegítimo. Levava bronca, ficava de castigo como os outros.
Tinha uns sete anos quando soube da adoção, de um jeito inesperado. Fiz alguma reinação na casa da vizinha e ela gritou: 'Sai daqui, menino adotado'. Isso me machucou. Foi a primeira vez que senti o preconceito na pele. Minha mãe, que estava esperando o momento certo para me falar da adoção, resolveu me contar toda a história. Junto com a revelação, nasceu o medo de que ela me abandonasse ou me devolvesse para a mãe biológica. Sempre que esse pavor surgia, minha mãe me dava colo, abraços e me acalmava com palavras de conforto. Com o tempo, esse sentimento ruim deu lugar à segurança. Sentia que tinha meu espaço na casa e dentro do coração da família. Além disso, tinha o carinho da minha irmã mais velha, que tinha 26 anos quando cheguei e foi como uma segunda mãe para mim.
''Tudo que tenho devo aos meus pais adotivos. Estudei na França, sou um profissional de sucesso e vivo tranqüilo''
Tudo que tenho devo a eles. Só me dei bem na vida. Passei um tempo estudando na França, sou um profissional de sucesso, tenho amigos queridos, minha vida amorosa é tranqüila. Falo da adoção com muita naturalidade e nunca tive problemas com isso.
Não sinto vontade de conhecer meus pais biológicos. Em-bora, às vezes, me pergunte onde estaria se não tivesse sido adotado, se sou parecido com minha mãe, se tenho irmãos, mas é só. Não me apego a essas questões. Recebi carinho, respeito e educação, e isso não deixou espaço para conflitos.
Ainda não é o momento, mas quero adotar um filho. É uma decisão difícil e tem de ser tomada com carinho. O importante é que um casal, duas pessoas do mesmo sexo, ou alguém sozinho se comprometa com a nova vida que tem nas mãos, como aconteceu lá em casa.
Senti demais a perda dos meus pais. Meu pai faleceu em 2000, velhinho, aos 86 anos. Éramos muito ligados. Mesmo morando em São Paulo, nos falávamos todos os dias. Quando ia para Goiânia gostava de cuidar dele, aparava sua bara e cabelo. A morte da minha mãe foi ainda mais difícil. Ela teve um derrame e morreu de repente, aos 79 anos. Aconteceu entre o Natal e o Ano-Novo de 2001 e fiquei com ela o tempo todo. O fato de a família ser superunida ajudou muito a superar a dor. A tristeza se transformou em lembranças boas. Agora, a vejo em sonhos maravilhosos, cheios de luz e alegria.''
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-2,00.html
''Meus pais adotivos tinham três filhos adultos e viviam em Goiânia. Como todos estavam demorando a casar e os netos não vinham, optaram pela adoção. Uma amiga da família soube que uma jovem estava doando o filho por não ter condições de criá-lo. Na hora, minha mãe foi me buscar na casa dessa amiga. Cheguei em casa com dois dias de vida, embrulhado em uma toalha de rosto. Cresci sem sentir diferença de tratamento em relação aos meus irmãos. Ao contrário, fui o único a estudar em escola particular e a ter as melhores roupas, pois, quando me adotaram, meus pais estavam numa boa situação financeira. Jamais fui tratado como ilegítimo. Levava bronca, ficava de castigo como os outros.
Tinha uns sete anos quando soube da adoção, de um jeito inesperado. Fiz alguma reinação na casa da vizinha e ela gritou: 'Sai daqui, menino adotado'. Isso me machucou. Foi a primeira vez que senti o preconceito na pele. Minha mãe, que estava esperando o momento certo para me falar da adoção, resolveu me contar toda a história. Junto com a revelação, nasceu o medo de que ela me abandonasse ou me devolvesse para a mãe biológica. Sempre que esse pavor surgia, minha mãe me dava colo, abraços e me acalmava com palavras de conforto. Com o tempo, esse sentimento ruim deu lugar à segurança. Sentia que tinha meu espaço na casa e dentro do coração da família. Além disso, tinha o carinho da minha irmã mais velha, que tinha 26 anos quando cheguei e foi como uma segunda mãe para mim.
''Tudo que tenho devo aos meus pais adotivos. Estudei na França, sou um profissional de sucesso e vivo tranqüilo''
Tudo que tenho devo a eles. Só me dei bem na vida. Passei um tempo estudando na França, sou um profissional de sucesso, tenho amigos queridos, minha vida amorosa é tranqüila. Falo da adoção com muita naturalidade e nunca tive problemas com isso.
Não sinto vontade de conhecer meus pais biológicos. Em-bora, às vezes, me pergunte onde estaria se não tivesse sido adotado, se sou parecido com minha mãe, se tenho irmãos, mas é só. Não me apego a essas questões. Recebi carinho, respeito e educação, e isso não deixou espaço para conflitos.
Ainda não é o momento, mas quero adotar um filho. É uma decisão difícil e tem de ser tomada com carinho. O importante é que um casal, duas pessoas do mesmo sexo, ou alguém sozinho se comprometa com a nova vida que tem nas mãos, como aconteceu lá em casa.
Senti demais a perda dos meus pais. Meu pai faleceu em 2000, velhinho, aos 86 anos. Éramos muito ligados. Mesmo morando em São Paulo, nos falávamos todos os dias. Quando ia para Goiânia gostava de cuidar dele, aparava sua bara e cabelo. A morte da minha mãe foi ainda mais difícil. Ela teve um derrame e morreu de repente, aos 79 anos. Aconteceu entre o Natal e o Ano-Novo de 2001 e fiquei com ela o tempo todo. O fato de a família ser superunida ajudou muito a superar a dor. A tristeza se transformou em lembranças boas. Agora, a vejo em sonhos maravilhosos, cheios de luz e alegria.''
Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML952933-1740-2,00.html
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