Silvana do Monte Moreira, advogada, sócia da MLG ADVOGADOS ASSOCIADOS, presidente da Comissão Nacional de Adoção do IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família, Diretora de Assuntos Jurídicos da ANGAAD - Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção, Presidente da Comissão de Direitos das Crianças e dos Adolescentes da OAB-RJ, coordenadora de Grupos de Apoio à Adoção. Aqui você encontrará páginas com informações necessárias aos procedimentos de habilitação e de adoção.
A atriz Leandra Leal foi uma das convidadas do “Altas Horas”, exibido na madrugada de sábado, 17 de junho, e falou sobre a adoção de sua filha, Julia, de dois anos, após conseguir a guarda definitiva da criança em dezembro do ano passado.
“Ela chegou para mim com 1 ano e sete meses. Sabe quando você é adolescente e se apaixona pela primeira vez e fala: agora eu entendi o mundo inteiro? Mas quando você é mãe aí você fala: ‘Ah, agora que eu entendi!’”, explicou.
Muito discreta, Leandra falou pela primeira vez sobre a adoção em entrevista para o o programa “Espelho”, apresentado por Lázaro Ramos. “Foi muito louco me tornar mãe, acho que só falaria isso em um programa com você (Lázaro Ramos). Nunca engravidei, nunca tive filho, mas tive a minha filha da forma mais linda do mundo. Ela me adotou como mãe e isso é muito transformador, puro, louco. Você quer cuidar, quer proteger e ao mesmo tempo quer que essa pessoa cresça e seja livre, linda. A forma como eu me tornei mãe, para mim, foi mágica. Foi um encontro de alma, foi um amor escolhido. Sentir esse amor dá muita força”, contou.
Ainda na entrevista feita em abril, Lázaro questionou se ela e o marido, Alê Yousseff, têm receio de criar uma criança negra no Brasil. “Eu me considero uma pessoa consciente e nunca fui indiferente ao racismo, mas agora, mãe da Julia é muito diferente. Antigamente quando me diziam que eu não entendia isso, porque não passava por isso, eu dizia que entendia. Mas não, não entendia. Eu tenho muita preocupação com o lugar que ela vai ser criada, com o país que ela vai enfrentar. Mas também comecei a questionar os meus valores, os meus amigos. Eu comecei a ver que a Zona Sul do Rio é predominantemente branca, eu não via muito, e comecei a me incomodar. Ver sobre referência para elas. Vi nos primeiros dias com negócio de Xampu. Não existe shampoo para crianças com cabelo crespo com menos de dois anos. É uma loucura”, observou.
Por Vladimir Passos de Freitas O uso das drogas vem aumentando progressivamente, fruto de causas sociais e psicológicas. Mas as drogas, como as pessoas, não são iguais. Umas causam danos mais graves do que outras. O crack está entre as primeiras.
Segundo o site da AbcMed, “o crack é uma mistura da pasta-base de cocaína refinada com bicarbonato de sódio e água. Muitas vezes a mistura é falsificada com o acréscimo de cimento, cal, querosene e acetona, para aumentar o seu volume. Quando aquecida, a mistura separa as substâncias líquidas das sólidas. As substâncias líquidas são então descartadas e as sólidas são convertidas na “pedra de crack” que, com a utilização de um cachimbo, é então fumada e absorvida pelo corpo em quase 100% do total ingerido”.[1]
O consumo cria um estado de euforia, ao qual se segue profunda depressão. A droga causa forte dependência física e, segundo Pereira e Jacoby, “os indivíduos sentem extrema necessidade de consumir a substância a ponto de abandonar gradativamente tudo o que é importante em sua vida, como: família, amigos, trabalho, vida social, estudos, a própria saúde, etc”.[2]
Os viciados perambulam pelas cidades em um triste espetáculo da degradação humana. Na maioria dos casos, são pessoas de poder aquisitivo e nível educacional baixo. Os dramas humanos se sucedem, sofrem os dependentes e também suas famílias. Nesta semana, em Sorocaba, SP, a mãe de uma adolescente dependente química acorrentou-a a um guarda-roupas, temendo que ela sofresse represálias de traficantes que a ameaçavam de morte por dívidas não pagas.[3]
Muitos tentam recuperar-se. Os que têm familiares com poder aquisitivo, em clínicas particulares. Os que se valem do SUS encontram em Itapira, SP, 315 vagas no Instituto Bairral de Psiquiatria, que atua em convênio com a Secretaria de Saúde.[4] Grupos de missionários, de origens diversas, fazem um importante trabalho de evangelização e assistência social.[5] Mas o exército de viciados é cada vez maior.
Evidentemente, há nisto tudo interesses econômicos vultosos. Na chamada Cracolândia, centro de reunião de viciados em São Paulo, a Polícia Civil constatou a existência de uma “Feira de Drogas”, com diversos tipos expostos em mesas localizadas em barracas, à disposição dos consumidores. A feira foi desfeita pela ação das autoridades, mas o comércio, claro, continuará em outros locais, enquanto houver interessados na compra.
Porém, o que ocorre na Cracolândia, ou em menor intensidade em centenas de outras cidades brasileiras, não é o tema deste artigo. Aqui o foco é mais restrito, confina-se em um único e importante aspecto: os filhos gerados pelas viciadas.
Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde sobre o uso do crack revelou que “Mais da metade das usuárias já havia engravidado ao menos uma vez desde que iniciou o uso do crack/similares. Trata-se de achado preocupante devido às consequências importantes do consumo do crack durante a gestação sobre o desenvolvimento neurológico e intelectual das crianças expostas”.[6] Entre elas, 22,8% já haviam engravidado duas ou três vezes.
Segundo o médico Valter Curi Rodrigues, "As crianças desenvolvem síndrome de abstinência fetal. Elas se tornam viciadas nos entorpecentes consumidos pelas mães", garante. Isso significa que têm tremores contínuos e convulsão por falta da droga.[7] Tais efeitos ainda estão sob estudo, mas aponta-se a possibilidade de parte da droga passar para o bebê em formação na placenta, causando baixo crescimento e problemas psicológicos.
Pesquisa empírica nos Estados Unidos narra o caso de Clorissa Jones, que “descobriu gravidez de sete semanas na época em que injetava heroína e fumava crack. Seu filho nasceu dependente de metadona, droga que ela usou durante a gestação como tentativa de sair da heroína. Durante suas primeiras semanas de vida, Braxton teve crises de abstinência como tremores e hipersensibilidade”.[8]
Os chamados “filhos do crack”, além das dificuldades do nascimento com previsíveis problemas de saúde, arcarão com o ônus de não terem proteção familiar, inclusive porque dificilmente alguém se disporá a adotá-los. Segundo reportagem de Fábio Mazzitelli, “ muitos dos pretendentes cadastrados já põem como condição para aceitar a criança que a mãe não tenha histórico de envolvimento com a droga, que afeta o sistema nervoso central”.[9]
Além do problema dos afetados diretamente, pondera-se, em um segundo momento, a questão da sociedade, uma vez que uma criança criada nas ruas, sem família, com problemas de toda espécie, certamente desenvolverá atos antissociais como reação.
Partindo do pressuposto de que a gravidez de mulheres viciadas não é um problema só delas, mas também dos filhos que elas geram e da sociedade, a norte-americana Barbara Harris fundou em 1997, na Califórnia, uma instituição destinada a estimular jovens viciados a serem esterilizados, para tanto recebendo pagamento de US$ 300. O chamado “Project Prevention”[10] migrou para a Carolina do Norte e, após ter levado a esterilização a três mil e quinhentos pessoas até 2010, entrou na Inglaterra, onde teve forte disseminação.[11]
Em sentido oposto, o deputado Francisco Floriano (DEM/RJ) idealizou Projeto de Lei, instituindo um “Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Gestantes Dependentes Químicas (Paege), de caráter intersetorial, integrante da Política Nacional de Assistência Social, que, no âmbito do SUS integra a proteção social especial e consiste no acolhimento, na atenção e recuperação de gestantes dependentes químicas em situação de ameaça a vida ou violação de direitos...”[12]
Portanto, o que está em jogo é saber qual solução deve ser dada ao problema da gravidez das viciadas no crack. Desde logo afasta-se da discussão a possibilidade de interromper a gravidez, quando já existente. Dispensam-se também propostas embaladas em frases de efeito, que já se revelaram impraticáveis (p. ex., “é preciso criar políticas públicas, abrindo-se o diálogo entre as fontes em discussão interdisciplinar, etc. etc.”). As opções, no mundo real, ficam confinadas a três:
Não tomar nenhuma providência, porque ter ou não filhos é uma opção que diz respeito única e exclusivamente à pessoa, configurando grave ataque à sua liberdade pessoal intervir na sua decisão;
Estimular, de todas as formas possíveis, que viciadas venham a engravidar, incluindo incentivo financeiro para que permitam medidas temporárias ou permanentes que impeçam a gravidez;
Aceitar a possibilidade de o Estado, em caso de reiteradas concepções por parte de pessoa viciada, promover o processo de laqueadura, impedindo-a de engravidar novamente, tendo em vista que o fato traz ao futuro filho o ônus de nascer com problemas de saúde e de não ter assistência e proteção familiar.
Qualquer que seja a opção escolhida, todos nós, e também nossos descendentes, sofreremos as consequências. Todas têm boas justificativas a sustentá-las. Qual a melhor solução?
Depois de passar a infância e a adolescência em casas de acolhimento, jovens da região ainda têm dificuldade durante o processo obrigatório de deixar o ‘lar’ após completarem 18 anos. O problema é reflexo da falta de ações efetivas destinadas ao desenvolvimento da autonomia financeira e da independência dos abrigados. Uma das alternativas defendidas por especialistas é a instalação de repúblicas destinadas à permanência destas pessoas até que consigam se manter sozinhas.
O desempregado Walter de Camargo, 30 anos, viveu na pele essa dificuldade. O morador de São Bernardo revela que se sentiu perdido quando se viu obrigado a deixar a Fundação Criança da cidade, espaço onde viveu por cerca de seis anos. “Eu não tinha para onde ir. Morei quase um ano na rua e só consegui um lar porque, na época, um amigo me falou da república jovem de São Bernardo, que acolhia jovens que saíam dos abrigos. Mas infelizmente o espaço não existe mais”, lembra ele, que passou noites na casa de conhecidos e também em albergues da cidade. Walter chegou à instituição aos 12 anos, após sofrimento devido aos maus-tratos por parte da família adotiva, que o recebeu aos 2 anos.
Luciana da Conceição, 25, também sofreu para conseguir se estruturar após ter de deixar o abrigo onde viveu dos 6 aos 19 anos, em Mauá. O plano da jovem, recolhida à instituição municipal após fugir das agressões do padrasto, era alugar uma casa para morar com a mãe. No entanto, um câncer no fígado vitimou fatalmente a mãe e obrigou Luciana a traçar novo horizonte. “Eu aluguei uma casa e fui morar sozinha. No início foi muito difícil”, revela ela, que atua como monitora no abrigo onde passou a infância e adolescência.
A assistente social Camila Jofre, que atua com crianças e jovens em situação de abrigo, explica que é feito trabalho de inclusão em cursos profissionalizantes e de busca pelo primeiro emprego a partir dos 16 anos. A ideia é que esse processo ajude na busca pela autonomia após os 18 anos, tendo em vista que em média 40% dos abrigados não são adotados e permanecem na instituição até alcançar a maioridade. “O desligamento desses jovens é muito complexo. É uma responsabilidade muito grande para eles, que não vão ter ninguém lá fora para auxiliá-los.”
Entre as sete cidades, cerca de 280 crianças e adolescentes vivem em abrigos municipais atualmente, sendo 116 em seis espaços localizados em Santo André, sete na única instituição de São Caetano, em média 70 menores em três equipamentos de Diadema, 30 em duas casas de Mauá, 30 em duas unidades de Ribeirão Pires e 26 crianças abrigadas em Rio Grande da Serra. São Bernardo não informou os números. Pouco mais de 10% do total de abrigados entre as sete cidades – cerca de 30 menores – estão aptos à adoção. Isso porque os pequenos só podem ser adotados após a destituição do poder familiar (quando há desvínculo da família de origem) – Lei 12.010/2009 – e, geralmente, os processos do tipo demoram de um até três anos na Justiça.
Especialista defende retorno de república no Grande ABC
A existência de repúblicas destinadas ao acolhimento de jovens que completaram 18 anos e foram obrigados a deixar os abrigos, mas ainda não conquistaram autonomia, é vista como solução para especialistas. O coordenador da comissão da criança e do adolescente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Ariel de Castro Alves, lembra que a única experiência que existiu na região foi observada em São Bernardo entre 2011 e 2013.
“Esses jovens precisam de apoio do poder público para conquistar a sua independência e autonomia. Quando não existe república jovem no município, o que ocorre na prática é o abandono do adolescente”, considera Alves.
A Prefeitura de São Bernardo destacou que o fechamento da república foi em consequência da demanda “mínima” de jovens. Conforme a administração, a Fundação Criança acompanha aqueles que deixam os abrigos e “todos os jovens iniciam a vida profissional por projetos sociais, recebendo um salário mínimo”.
Desde que entraram no Lar da Criança, que fica no bairro Bandeirantes em Cuiabá, os menores Sidiwald Crystofher Rodrigues Santos de 11 anos e José Roberto Nunes de 10 anos já sabiam que o tempo é o principal inimigo da adoção. Quanto mais a criança cresce menor é a chance dela ser adotada.
Quem acaba de ingressar no seleto número de pais que decidiram e conseguiram adotar crianças mais velhas é o professor de português Thiago Carneiro de Almeida, de 35 anos. O professor, que mora no Rio de Janeiro, adotou Sidiwald e José Roberto após um cuidadoso processo de integração com as crianças. As informações são da assessoria do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT).
Segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção, existem atualmente cerca de 5,7 mil crianças e adolescentes aptos a serem adotados. Do outro lado, 33,5 mil famílias querem adotar. A disparidade no número e no tamanho da fila de adoção tem um motivo: A maioria dos pais não quer crianças mais velhas. O CNA calcula que apenas 1% dos cadastrados dizem aceitar crianças acima de 8 anos.
A adoção, no entanto, não é um processo simples. E passa por uma série de questões que vão de determinantes burocráticos a problemas sociais e psicológicos das crianças. Thiago, por exemplo, enfrentou um duro período de aproximação. O pequeno "Sid", como Thiago chama seu filho, reagiu de maneira bastante negativa nos primeiros contatos.
"Me lembrei de uma frase que ouvi no curso: a criança certa vai vir para família certa. Foi um período de muita luta, muita paciência. Sid não me tocava, me empurrava, era muito frio [...], mas quem tinha que amar era eu e não o Sid. Eu escolhi adotar. Todas as vezes que ele dizia não, repetia: eu sou seu pai, eu te amo. Você é meu, entre vários, eu te escolhi”, contou ele.
Thiago Almeida optou por adotar crianças com doenças e não fez preferência por bebês. O que facilitou todo trâmite processual e aumentou o número de possibilidades. No entanto, após receber uma ligação, num domingo, da juíza Gleide Bispo Santos, decidiu vencer o medo de andar de avião e vir até Cuiabá conhecer Sidiwald para o período de aproximação com o menor. Ficou hospedado no Lar da Criança, acompanhou toda rotina da instituição e conheceu José Roberto.
A boa dose de paciência foi rompendo o medo da rejeição do menor, cortou o laço afetivo com o Lar da Criança, e já no final de fevereiro conquistou a verdadeira relação entre pai e filho. Aí perguntou ao Sidiwald: você gostaria de ter um irmão? Ele respondeu: sim, o José Roberto. "Então vou lutar pelo José", respondeu o pai adotivo. Hoje, ele considera que a família está completa "Sidiwald é o filho desejado e amado, o primogênito. José Roberto, o sonhado", afirma.
Emocionada a juíza da 1ª Vara Especializada da Infância e Juventude de Cuiabá, Gleide Bispo Santos, comemorou a concretização da adoção dos dois meninos, que agora partirão para o Rio de Janeiro. Uma audiência foi realizada no Lar da Criança, que tem 17 acolhidos, a maioria com mais de 12 anos de idade.
"Estamos fechando o Lar, lá já chegamos a ter 200 crianças, mas estamos mudando para as Casas Lares com até 10 crianças somente. Hoje até chorei. Conseguimos concretizar a adoção do Sidiwald e do Luiz Felipe, que tem um grau de autismo leve, a guarda provisória de José Roberto [seis meses]. É um dia muito feliz", comemorou a magistrada.
Foi retirado de pauta, durante reunião ordinária na Câmara Municipal de Uberaba (CMU), o Projeto de Lei (PL) 50/17, que institui na cidade a Semana Municipal da Adoção de Crianças e Adolescentes. De acordo a proposta, que provavelmente deverá ser analisada ainda este mês, a Semana Municipal da Adoção será realizada, anualmente, nos sete dias que antecedem 25 de maio. De acordo com a justificativa do PL, a instituição da Semana Municipal da Adoção estabelece um período dedicado à questão. O objetivo é levar às pessoas esclarecimentos acerca de todo o processo humano envolvido na adoção.
A retirada da matéria de pauta se deu a pedido da autoria da iniciativa, Denise Max (PR). Ela alegou que pretende levar ao plenário do Legislativo voluntários e técnicos que atuam com serviços de adoção na cidade. Na oportunidade, eles poderão destacar a importância de se estabelecer um período do ano para discutir e divulgar as ações que venham estimular a prática da adoção.
Durante a semana serão esclarecidas, a todos interessados, as etapas legais que os futuros pais devem percorrer para adotar uma criança ou adolescente. Nesse sentido, cabe lembrar que a adoção não é a última maneira de se ter filhos, mas, sim, outra forma de ser pais. Essas questões devem ser refletidas e comemoradas na Semana Municipal da Adoção. O PL tem autoria ainda dos vereadores Alan Carlos (PEN) e Ismar Marão (PSD).
Denise ressalta que durante esse período serão realizadas atividades envolvendo o tema adoção, entre elas a Corrida da Adoção. “A data é sempre um motivo de reflexão, debate e união de todos aqueles que vivenciam e militam em prol da adoção em nossa cidade”, disse Denise. A matéria deve estar de volta na pauta da reunião da terça-feira (20) para apreciação dos vereadores.
Uma história de abandono marcou o feriado de Corpus Christi na cidade de Monteiro, Cariri paraibano.
Um bebê, com poucas horas de nascido, foi deixado num local com todas as possibilidades para que não sobrevivesse.
Era por volta das 11h30 da manhã dessa quinta-feira, 15 quando o recém-nascido foi encontrado em condições precárias.
Ele estava nu, próximo a um esgoto e sobre uma calçada. Uma sacola o protegia da vista das pessoas. Blocos de tijolos ameaçavam cair sobre o bebê.
Duas crianças que brincavam no local, conhecido como rua do Bujão, viram a sacola se mexendo e, pensando ser um gato, pediram à mãe deles para pegar o suposto animal.
Ao chegar no local, a mulher constatou que se tratava de um recém-nascido e acionou o Samu e a polícia.
O bebê recebeu os primeiros socorros e foi levado para o Hospital Regional Santa Filomena, onde recebeu o nome de Davi, que significa O Amado, na linguagem bíblica.
De acordo com a delegada que acompanha o caso, Laura Priscila, no momento em que foi salvo, o menino ainda estava com o cordão umbilical.
A Polícia Civil trabalha com uma linha de investigação de que a mãe biológica do bebê teria escondido a gravidez e que o parto tenha ocorrido em domicílio, já que nenhum registro foi confirmado nos hospitais, postos e centros de saúde da região e de cidades vizinhas em Pernambuco.
Um alerta foi dado para que, se alguma mulher procurasse os estabelecimentos de saúde buscando atendimento pós-parto, o fato fosse comunicado imediatamente à polícia.
– Quando ele foi levado para o hospital, os médicos constataram que ele tinha acabado de nascer e que se tivesse passado mais tempo, o menino teria sofrido de hipotermia. Estamos analisando todas as câmeras das proximidades e buscando informações com populares. Através disso, já estamos chegando a uma linha de investigação e provavelmente tenha sido uma mãe que, por alguma razão, tenha escondido a gravidez. A mulher vai ser responsabilizada criminalmente por abandono de incapaz e, dependendo das intenções dela, por tentativa de infanticídio – relatou a delegada.
Os funcionários do hospital ficaram sensibilizados com a situação do bebê e realizaram uma campanha nas redes socais para angariar roupas, fraldas e material de higiene.
O Conselho Tutelar foi acionado, e Davi será levado para um orfanato, ficando à disposição do Poder Judiciário.
Mobilizar a sociedade e fomentar a discussão em torno de crianças e adolescentes institucionalizados é o objetivo do XXII Encontro Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Enapa), que deu início ontem e segue até amanhã, na Assembleia Legislativa do Ceará. Esta é a primeira vez que Fortaleza sedia o Enapa, promovido pela Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad) e Acalanto Fortaleza. O evento reúne nomes de referência nacional para falar sobre adoção.
Pela manhã, no 3º Workshop da Angaad, a presidente da associação e psicóloga, Suzana Schettini, contou que o evento é importante para atualização em torno dos progressos e novidades que envolvem a adoção. “Cabe a nós, grupos de apoio à adoção, trabalharmos para viabilizar essas adoções, preparando pretendentes, preparando sociedade, cobrando celeridade dos tribunais, das varas de infância, para que os processos andem cada vez mais rápido para as crianças irem para suas famílias”, disse.
A abertura oficial ocorreu, às 17 horas, com a palestra do juiz de Direito do Mato Grosso do Sul (MS), Fernando Moreira, que tratou do tema central da 22ª edição do Enapa: “Família: Direito de Todos”. “Para nós do Ceará, é um privilégio e uma maneira ostensiva de estreitar os laços entre as instituições que trabalham com a política de adoção e o Judiciário. A gente tem, também, a oportunidade de trocar experiências exitosas no processo de desafogamento da fila de crianças que estão em processo de adoção”, destacou o vice-presidente da Acalanto Fortaleza, Lucineudo Machado.
De acordo com o Cadastro Nacional da Adoção (CNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), existem, atualmente, no Brasil, 7.610 crianças e adolescentes para adoção e 39.921 pretendentes. É pelo número não bater, uma das principais motivações de fortalecer uma nova cultura de adoção no Brasil. Além da questão da demora do processo, existe ainda a problematização de crianças fora do perfil desejado pelos pretendentes. “A grande maioria dos pretendentes que temos, hoje, 37 mil, desejam crianças menores, mas não posso culpabilizá-los. Quando a maioria desses pretendentes não tem filhos, então é muito natural eles desejarem, no primeiro momento, crianças menores, que seria a continuação do projeto familiar”, afirmou Suzana.
Ainda segundo a presidente da Angaad, quando os casais que pretendem adotar começam a frequentar grupos de apoio, eles amadurecem o sonho de tornar-se pais, admitindo e assimilando novas possibilidades. “Então, temos visto que os grupos de apoio a adoção têm intensificado seu trabalho e pessoas se abrindo a adoção de pessoas maiores. Mas, por outro lado, temos o processo judicial que, muitas vezes, não anda. Em algumas comarcas não há equipes técnicas necessárias, são deficitárias, faltam psicólogos, assistentes sociais que assinam os laudos e os estudos técnicos necessários para definir a situação da criança, e elas acabam ficando muito tempo nas instituições. É uma conjuntura de fatores, muito complexo”, afirmou.
Busca ativa
Amanhã (17), Bárbara Toledo, do Grupo Quintal de Ana, irá falar sobre “Como estruturar a busca ativa no âmbito judiciário”. Bárbara destaca a importância em tratar a estrutura da busca ativa, um dos pontos mais fortes do Enapa. “A busca ativa é um mecanismo para divulgar as crianças disponíveis para adoção fora do perfil. São aqueles mais velhos, com irmãos, negros, os deficientes. É uma parceria com juízes e promotores para divulgar esses nomes para grupos de adoção e desenvolver mecanismos de aproximação”, ressaltou.
Também amanhã, o procurador de Justiça do Rio de Janeiro, Sávio Bittencourt, irá ministrar a palestra “O tempo de institucionalização: aspectos judiciais, jurídicos e psicológicos”. Para Sávio, eventos como o Enapa são importantes para fomentar o debate sobre a institucionalização de crianças e ampliar as buscas de soluções para “erradicação desse mal no País”.
O procurador cita o sucesso do projeto desenvolvido no estado do Rio de Janeiro, o “Quero uma Família”. Trata-se de uma ferramenta online, onde os pretendentes habilitados, mediante uma senha, acessam o projeto e podem ver as crianças disponíveis para adoção. “Eles veem a criança carne e osso”, explicou Bittencourt. O projeto dá rosto, voz, oportunidade e expressão às crianças disponíveis e é uma forma de diminuir o tempo dos mais velhos em abrigos.
Afeto
De acordo com Sávio Bittencourt, outro fator que dificulta a celeridade dos processos de adoção é que a Justiça precisa atender ao critério que estabelece que antes de ir para adoção, sempre que possível, deve-se priorizar a reinserção à família de origem. O procurador destacou que “as crianças não podem esperar os pais resolverem seus problemas”.
Para a presidente da Angaad, isso é uma preocupação. “Existe o mito dos laços sanguíneos, em alguns locais se perde muito tempo procurando parentes consanguíneos que nem afinidade tem com a criança que está disponível. Nos eventos, trabalhamos muito essa relação e a importância dos laços afetivos que são esses que configuram a verdadeira filiação”, concluiu Suzana.