segunda-feira, 25 de julho de 2016

Desafios da adoção tardia (Reprodução)

24/07/2016

Quando uma família recebe a notícia de que terá um bebê tudo vira alegria. A espera para ver o rostinho da criança, a compra do enxoval, a escolha do quarto, tudo é mágico. Em alguns casos a gravidez pode ter algumas complicações e ser mais difícil, mas no geral a maioria das pessoas espera nove meses para conhecer o seu filho ou filha. Você não sabe se ele será calmo ou agitado, você não escolhe se será menino ou menina, se será mais parecido com você do que com outro membro da família, se terá algum problema de saúde… Você apenas espera e ama.
Já parou para pensar que no caso da adoção é exatamente igual? Apesar
de algumas particularidades no processo, a adoção também é a espera por um filho que você não conhece, mas simplesmente ama.

Muitas pessoas imaginam que o processo de adoção é demorado. Alguns dados mostram que não é a burocracia e sim as exigências que fazem o processo demorado. Dados sobre adoção no país, divulgados em 2015, mostravam que mais de 33 mil pessoas estavam aptas a adotar. Em contra partida havia pouco mais de 5 mil crianças na espera por uma família. A diferença entre pretendentes para a doção e crianças para serem adotadas é bem clara, isso porque a grande maioria que pretende adotar uma criança tem preferência por bebês ou crianças até 4 anos e que não possuam irmãos.
Em Videira, segundo dados repassados pelo Fórum da Comarca de Videira, existem 18 casais aptos a adotar e cadastrados no Cadastro Nacional de Adoção, mas apenas 3 crianças que esperam para serem adotadas. A faixa etária dessas crianças é de 12, 15 e 17 anos.

A análise dos perfis do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) indica que é falsa a crença comum de que o maior obstáculo às adoções no Brasil é a questão racial. Cerca de um terço (32,36%) dos pretendentes só aceita crianças brancas, que representam exatamente três em cada dez das cadastradas. Por esse viés, portanto, não existiria dificuldades. Até porque quase 100% das famílias se dispõem a acolher crianças negras ou pardas, que são duas em cada três do cadastro. Além disso, nada menos que 38,72% se declaram indiferentes em relação à raça do futuro filho ou filha.

A dificuldade está no fato de que apenas um em cada quatro pretendentes (25,63%) admite adotar crianças com quatro anos ou mais, enquanto apenas 4,1% dos que estão no cadastro à espera de uma família têm menos de 4 anos. Por isso, cada dia que passam nos abrigos afasta as crianças ainda mais da chance de encontrar um novo lar. Tanto que é inferior a 1% o índice de pessoas prontas a adotar adolescentes (acima de 11 anos), que por sua vez respondem por dois terços do total de cadastrados.
Outro fator que costuma ser sério entrave à saída de crianças e adolescentes das instituições de acolhimento, de acordo com as estatísticas do CNA, é a baixa disposição dos pretendentes (17,51%) para adotar mais de uma criança ao mesmo tempo, ou para receber irmãos (18,98%). Entre os aptos à adoção do CNA, 76,87% possuem irmãos e a metade desses tem irmãos também à espera de uma família na listagem nacional. Como os juizados de Infância e Adolescência dificilmente decidem pela separação de irmãos que foram destituídos das famílias biológicas, as chances de um par (ou número maior) de irmãos acharem um novo lar é muito pequena.

Por que é assim?

Os motivos que levam a essa situação são muitos. Aquela questão do ‘o que essa criança vai trazer de bagagem’ é muito forte. Na verdade, muito se fala sobre a criança, como ela vai se adaptar, sendo que 99,9% dos problemas que podem acontecer vêm da cabeça do adulto.

Segundo a assistente social da Comarca de Videira, Jussara Stacke, o que se sobressai é o medo das pessoas do que significa trazer uma criança mais velha para a sua família.

“Importante salientar que a morosidade para adoção tão comentada pelas pessoas em geral, ocorre tão somente pela delimitação do perfil e idade da criança desejada, pois adoções de crianças recém-nascidas está cada mais restrito, ocorrendo mais rápidas adoções de crianças maiores, grupos de irmãos ou crianças e adolescentes que apresentem alguma necessidade específica de saúde ou com deficiência. Ressaltamos que as crianças maiores são preparadas a receber sua nova família e basicamente o que  necessitam é de afeto, acolhimento e orientação” destaca.

A maioria dos casais ficam presos na idéia do que eles consideram a criança ideal e não aceitam a possibilidade da criança real, muitas pessoas querem que a criança venha como um papel em branco e ignoram que tudo o que já aconteceu com ela faz parte do que ela é.

Na prática, não existe nenhuma diferença legal na adoção de crianças mais velhas em relação à de bebês. O processo é burocrático, com muita documentação envolvida, mas independe da idade. Após a habilitação, cabe aos pretendentes aguardar a convocação do juiz para conhecer uma criança que esteja disponível e atenda aos parâmetros estabelecidos no processo de cadastramento. Esse tempo de espera, no geral, acaba sendo muito longo devido ao número de restrições impostas pelos candidatos. Quando não há restrição de sexo, cor ou idade (além de vários outros critérios questionados durante o processo de cadastramento), a espera costuma ser bem menor. Quando a convocação acontecer, os pais em potencial conhecerão a criança ou adolescente indicado e, caso desejem levar a adoção em frente, entrarão com um pedido de guarda provisória (isso pode acontecer após alguns encontros, ou até mesmo no primeiro), que, no futuro, poderá se transformar em uma adoção definitiva, conforme orientação do juiz.

“E se eu não der conta?”

Essa parece ser a questão que traduz todo esse medo da adoção de uma criança mais velha. Medo da história que o pequeno traz consigo, dos traumas que já pode ter sofrido, de não conseguir estabelecer uma relação de pai e filho com ele… Medos naturais, mas que podem ser enfrentados. Alguns desafios da adoção tardia são particulares, alguns são comuns a pais adotivos e pais biológicos. A questão é como você vai lidar com cada um deles. O filho biológico também precisa ser adotado. A mãe biológica, assim como a adotiva, precisa encarnar essa função de educar.

“Você não é meu pai”

Essa é, possivelmente, a mais temida das frases que filhos adotivos podem dizer a seus pais. Todos os medos, inseguranças e dúvidas de um pai são colocados à prova nesse momento. E é aí que mora o perigo. Se um adulto é afrontado com isso e não está preparado, ele desmonta e leva a criança junto – imagina o seu pai não ter confiança de que ele é seu pai de verdade. Não é tão diferente do ‘eu não pedi pra nascer’ que um filho diria a seus pais biológicos. Como o adulto vai lidar com isso depende muito da segurança que ele tem de ocupar o lugar de autoridade. Se ele precisar demais da aprovação da criança – como muitos pais biológicos também precisam -, essa relação será complicada.
Também é essencial entender a importância de manter um diálogo aberto em relação às questões que aquela criança possa estar enfrentando. Sentir curiosidade a respeito da família biológica e das circunstâncias que a levaram até ali é natural e deve ser conversado abertamente.

Como funciona?

O processo de adoção é gratuito e ajuizado na vara da Infância e Juventude, onde os interessados podem procurar o setor de serviço social para obter maiores informações.

Segundo a assistente social Jussara a documentação solicitada corresponde basicamente aos itens a seguir:

– Requerimento dirigido ao juiz da infância e juventude;
– Atestado de antecedentes criminais e cível;
– Atestado de saúde física;
– Avaliação psicológica;
– Comprovante de rendimentos;
– Comprovante de residência;
– Certidão de casamento, ou nascimento, se solteiros;
– Carteira de identidade;
– CPF;
– Foto do(s) pretendente(s);
– Estudo Social elaborado por assistente social do Fórum da comarca onde residem os requerentes;
– Participação no curso preparatório à adoção que é de16 horas.

Tudo igual, só que diferente


Compreender que a adoção tardia tem, sim, seus desafios particulares, que é um processo longo e delicado de estabelecimento de confiança e que muitos aspectos dela não são fáceis é essencial. Mas também é importante perceber que dela pode sair uma relação de amor tão profunda (se não mais) quanto em qualquer outra circunstância. Adotar uma criança é um salto no escuro enorme – mas o resultado pode ser fantástico.

Original disponível em: http://folhavideira.com/2016/07/24/desafios-da-adocao-tardia/

Reproduzido por: Lucas H.



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