quarta-feira, 11 de março de 2015

Repense o que você ensina às crianças após conhecer a saga deste casal gay



Thamires Andrade
Do UOL, em São Paulo


  • Frederico Mendes
    O garoto P.H. posa ao lado dos pais Rodrigo Barbosa e Gilberto Scofield Júnior O garoto P.H. posa ao lado dos pais Rodrigo Barbosa e Gilberto Scofield Júnior
Depois que três casais heterosexuais rejeitaram adotá-lo por ele ser "muito negro e feio", o garoto P.H., 5, que morava em um abrigo no interior de Minas Gerais, encontrou um lar com o casal Gilberto Scofield Júnior e Rodrigo Barbosa. Os pais e o menino vivem juntos há quatro meses e, agora, lutam para que a família seja aceita e encarada com naturalidade pela sociedade. "Tememos que o P.H. sofra algum preconceito. É uma preocupação constante, mas estamos preparados psicologicamente para lidar com isso", afirma Júnior.
Para Helio Deliberador, professor do Departamento de Psicologia Social da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, é apenas na convivência com as diferenças que os novos tipos de família serão aceitos com mais facilidade. "Ainda hoje, o que é mais comum é a família formada por um casal heterossexual. A união homoafetiva tem uma forte presença e se torna mais corriqueira com o passar do tempo. Quanto mais contato com os diferentes arranjos familiares houver, mais fácil será compreender e assimilar as diferenças. É assim que o preconceito vai se dissolver", diz Deliberador.
"É difícil mudar os valores de um cidadão, pois cada um pode pensar o que deseja, o que não dá é permitir que ele discrimine, prejudique e faça outra pessoa sofrer por ter uma opinião ou visão diferente. Ninguém tem esse direito", afirma Belinda Mandelbaum, professora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).
A criança, seja aquela que vive em uma família que foge do tradicional ou filha de pais heterossexuais, aprenderá a lidar com o preconceito enraizado na sociedade com os modelos que têm dentro de casa. "Não adianta muito discurso para a criança. Ela tem de conviver em um ambiente no qual pode conversar sobre o preconceito, seja ele qual for, de forma aberta", afirma Ivete Gattás, médica psiquiatra da infância e coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
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Pais gays falam dos desafios que enfrentam na criação dos filhos6 fotos

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"Minha gravidez não foi planejada e eu eduquei a Bruna sozinha até os quatro anos, quando conheci a Cida. Nós nos ajudamos muito, porque, na época em que fomos morar juntas, eu fazia faculdade à noite, então ela cuidava da minha filha durante esse período. Em contrapartida, sou uma pessoa mais severa e ela queria alguém que tivesse mais pulso com os filhos. Como eu tinha flexibilidade de horário durante o dia, ficava com eles (a Bruna mais os dois filhos da companheira) nesse tempo e a gente invertia os cuidados. Uma preocupação nossa foi criá-los sem ter preconceitos, então, lá em casa, meninos e meninas sempre dividiram as mesmas tarefas de casa. O mais gratificante é que, apesar de muita gente defender o modelo de família tradicional, nós conseguimos criar três pessoas de bem e de caráter" | Rosangela Garcia Salatiel (à direita), 48 anos, advogada e mãe de Bruna, 23 anos, de São Bernardo do Campo (SP) Arquivo Pessoal
"Para uma criança ser bem cuidada, ela tem de ter orientação e carinho, e isso não é exclusivo de casais heterossexuais. Depende muito da qualidade da educação e da atenção dadas pelos pais, independentemente de serem gays ou não", diz Aurélio Melo, professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, na capital paulista.
Dar carinho, proteção, alimentar, apresentar a criança ao mundo social e colocar regras e limites são atribuições dos pais. "Ter pai e mãe não é necessariamente ter um pai homem e uma mãe mulher, mas, sim, pessoas que cumpram essas funções que vão muito além do gênero", afirma Ivete.
Como qualquer pessoa que se encontra em uma situação de diferença social, os pais devem preparar o filho, pois ele está sujeito a sofrer algum tipo de discriminação, mas sempre pensando no melhor momento para abordar o tema. "O assunto deve ser conversado, mas, dependendo da idade, a criança não tem uma boa compreensão. Os adultos costumam negar a existência do preconceito ou se precipitar por ansiedade. A recomendação é observar atentamente para identificar o melhor momento para falar sobre o tema", declara Melo.
Tão importante quanto preparar a criança para um possível preconceito é aprontar o entorno, como a família, a escola e a comunidade. "O adulto deve conversar com a direção e a coordenação da escola para verificar como a instituição se posiciona diante das diferenças. Devem trabalhar em conjunto para proteger a criança. A escola pode aproveitar para abordar o tema na sala de aula, debater sobre os diferentes arranjos de família para que os alunos entendam que cada casa se estrutura de uma forma. O debate é uma boa fonte de aprendizagem, cidadania e trato com a diversidade", declara a professora Belinda.
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Dia dos Pais 201115 fotos

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O banqueteiro Marcelo Eduardo Sampaio, 43 anos, e o dentista Eduardo Luis Indig, 48, enfrentaram uma batalha árdua até conquistarem a guarda definitiva de Manoel, de quatro anos Leia mais Bob Donask/UOL

A seu tempo

Na ânsia de blindar o filho, alguns pais antecipam conversas, que acabam sendo infrutíferas. "Às vezes, a criança só tem uma dúvida muito pontual e eles fazem um discurso de três horas, que não faz a mínima diferença para ela. É uma ilusão achar que dá para preparar a criança para todo e qualquer acontecimento, isso não existe", fala Ivete.
À medida que as questões forem apresentadas pela criança que vive em uma configuração familiar diferente, a médica psiquiatra da infância orienta que os pais conversem bastante para que ela possa lidar com as dificuldades. "A criança constrói um repertório interno para responder essas demandas. Pode não deixar de sofrer um eventual preconceito, mas estará mais preparada para lidar com ele."
Caso o filho pegue os pais desprevenidos, Ivete aconselha transparência e honestidade na resposta. "Às vezes, os familiares não estão preparados para explicar sobre os diferentes tipos de família, nesse caso, devem ser honestos e falar que não têm resposta naquele momento e questionar se podem pensar melhor para responder a pergunta mais tarde."
Para Belinda, os pais são os responsáveis por promover uma educação pautada no respeito pelo próximo. "Cada um tem o direito de ser quem é. É triste que ainda existam famílias que incitem o preconceito e o ódio de diversas formas, pois isso é anticivilizatório e só gera mais violência", afirma.
A recomendação da especialista é que os pais de todas as famílias conversem com seus filhos sobre as mudanças na sociedade, pois todos os novos arranjos têm legitimidade, direitos iguais e devem ser respeitados. "Essa educação tem início em casa e a sociedade precisa participar disso, conversando e trocando ideias a respeito. Mesmo que seja difícil mudar valores, ninguém tem direito de promover discriminação de qualquer tipo", afirma.
Júnior conta que o tema já é discutido em casa com o garoto P.H. "Hoje a gente explica que o amigo da escola tem só uma mãe, porque o pai dele se separou e foi morar em outro Estado, mas sempre destacando que aquela família também é linda. Conheço muitos casais heterossexuais e homossexuais que falam sobre esse tema com os filhos. Há vários exemplos de famílias e todas são legítimas quando há afeto, amor e atenção", declara.
O comportamento dos pais é determinante para ensinar as crianças sobre respeitar o próximo. "A atitude que a família tem vale mais do que qualquer discurso. O pai pode falar que não tem preconceito, mas se, ao xingar alguém, usa palavras preconceituosas, como bicha e sapatão, passa para o filho como, realmente, se sente a respeito desses temas. O comportamento é muito maior do que o discurso", afirma Ivete.
Segundo a psiquiatra, as famílias ensinam o que prevalece dentro de casa. Portanto, um grupo mais aberto, que aceita a diversidade, irá educar o filho com esse modelo, enquanto outro mais rígido passará esse comportamento. "Mas ele só seguirá isso até certa idade, pois, ao chegar na adolescência, o jovem começa a pensar e a questionar o mundo por si só e terá a chance de construir novos conceitos sozinho."
Para Júnior, o maior desafio que os pais enfrentam nos dias de hoje é criar pessoas que deixem de lado o discurso de ódio e o individualismo exacerbado."Educar crianças que sejam capazes de se colocar no lugar dos outros, de exercitar a gentileza. Basicamente, gente fina, elegante e sincera, com habilidade para dizer mais sim do que não, como diria Lulu Santos", diz.
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Veja dez pensamentos ultrapassados que você não deve passar para seu filho11 fotos

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"Os comportamentos associados aos gêneros masculino e feminino são construções sociais, que definem como a pessoa se relacionará consigo mesma e com o mundo", afirma a socióloga Tica Moreno, da Sempreviva Organização Feminista. Esses comportamentos variam conforme a sociedade e o momento histórico e estão entre os inúmeros valores que os pais transmitem aos filhos, às vezes, sem perceber. Veja a seguir se você está passando pensamentos ultrapassados para a criança. Por Rita Trevisan e Suzel Tunes, do UOL, em São Paulo Rogério Doki/Arte UOL

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