sexta-feira, 5 de julho de 2013

ADOÇÃO TARDIA



“A mãe da Ana chegou! A mãe da Ana chegou!” Foi o que gritaram as crianças quando viram um carro entrar no abrigo na última quarta-feira. Ana, de 8 anos, e o irmão Pedro, de 4, iriam, enfim, para casa. Com um vestido lilás, a menina caminhou com passos lentos, desviando dos amiguinhos que estavam em seu caminho. De mãos dadas com o irmão, foi ao encontro do casal que até alguns meses atrás chamava tios. Quando chegaram pertinho, Ana e Pedro pularam no colo dos novos pais, mostrando o quanto esperaram por aquele momento.
A felicidade dos irmãos só foi possível porque o consultor de informática Antônio, de 47 anos, e a economista Carla, 38 , optaram pela adoção tardia. E eles personificam uma tendência: a escolha de crianças com mais de 5 anos tem aumentado no Estado. Entre 2005 e 2006, o número desse tipo de adoção cresceu 71,8%, passando de 160 para 275.
Porém, as adoções tardias representam só 11% do total de pessoas autorizadas - 2.516 - pela Justiça, no ano passado, a adotar crianças no Estado. A maioria (57%) prefere bebês com no máximo 2 anos. Crianças com essa faixa etária, brancas e sem irmãos não “esquentam” lugar nos abrigos.
Quem está fora dessas características tem que entrar na fila, como Ana e Pedro. Ela foi abandonada pela mãe, aos 2 anos, num abrigo da Zona Norte. Depois chegou o irmão, recém-nascido. Eles foram as primeiras crianças a serem apresentadas a Carla e Antônio, casados há 12 anos. Foi amor à primeira vista.

Atualmente, 6.706 brasileiros e 385 estrangeiros esperam sua vez para adotar um filho no Estado. Do outro lado, 1.113 crianças disponíveis não conseguem encontrar uma família. “Esses são casos em que tentamos a adoção e ninguém quis”, disse o juiz responsável pela área de infância e juventude da Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo, Reinaldo Cintra. Segundo ele, isso ocorre por dois motivos: as pessoas querem exercer a paternidade como se tivessem gerado o filho; e não conseguem vencer os mitos que cercam a adoção tardia. “Cicatrizes todas as crianças têm. A diferença está no preparo dos pais.”

O casal de publicitários Rui, 49 anos e Ena Barbosa, 48, não tem dúvidas. “É preciso estar tranqüilo e seguro para fazer a opção”, disse Ena. E assim eles se sentiam quando, em 2004, adotaram Luiza, de 2 anos, Isabela, de 3 e Felipe, de 7. No Fórum, eles haviam pedido dois irmãos, saudáveis e com mais de 1 ano.
O processo levou o tempo de uma gestação. “Mesmo que tivessem saído da minha barriga eu já não poderia escolher”, disse Ena, que não tem filhos biológicos. Ela e o marido decidiram fazer uma adoção tardia porque temiam que um bebê aparentemente saudável manifestasse alguma doença depois. “Só me deixa triste pensar que alguém teve coragem de abandonar os meus filhos.”
O primeiro ano para a nova família Barbosa foi o mais difícil. As crianças chegaram com piolhos e micose. A mais jovem só queria comer salsicha e bolacha de água e sal. No final do primeiro ano, Felipe mal sabia escrever seu nome. Agora, eles já comem brócolis e couve-flor e o menino já leu seu primeiro livro sozinho: “Capitão Cueca”. “Eles chegaram com sentimento de autopiedade, mas agora já aprenderam que são é sortudos”, disse a mãe.
Desde 2004, quando o Tribunal de Justiça começou a coletar e a organizar as informações sobre adoção no Estado, o perfil dos candidatos a pais adotivos pouco mudou. Em 2006, 50% deles tinham entre 31 e 40 anos, 44% cursaram ensino superior, 66% não tinham filhos e 85% são casais.

Se não fosse solteiro, o jornalista Christian Heinlikl, 35, estaria perfeitamente dentro desse perfil. Ele conseguiu a autorização para entrar na fila de adoção em abril deste ano. Em poucos dias, recebeu por e-mail uma lista com o nome das crianças disponíveis e a idade, entre eles, Vinícius, de 8 anos. “Bati os olhos e tive a certeza de que era o meu filho. Esperei oito anos para encontrá-lo.”
Heinlikl sempre quis ser pai. A decisão de adotar uma criança mais velha veio dos encontros num grupo de apoio que começou a freqüentar. “Eu tinha uma série de fantasias que não eram o meu desejo”, disse. Foi quando ele percebeu que não queria um bebê, mas uma criança com quem pudesse conversar. “Eu não troco fraldas do meu filho, tá doendo ele me explica o que é. A gente conversa, ri, chora. É uma delícia.”
Outro aspecto da adoção tardia que fascina Heinlikl é o direito de escolha da criança. O pai novato lembra bem o dia em que Vinícius fez a dele. Uns meses depois da chegada, o menino aprontou e levou uma bronca. A resposta veio de pronto: “Você não é meu pai. Quero voltar pro abrigo.” Com segurança, Heinlikl retrucou: “Se é sua vontade, vou levar você de volta. Mas fique sabendo que sou seu pai pra sempre.” No dia seguinte, o jornalista ligou para o abrigo e passou o telefone para Vinícius conversar com a assistente social. Rapidinho ele desfez o nó: “Tia, eu fiz pirraça pro meu pai, disse que ia embora, mas não vou porque aqui é minha casa. Tchau.”
Com exceção de Heinlikl, os pais pediram para que as crianças não fossem identificadas, temendo problemas com a famílias biológicas.
http://gaalapraiagrande.blogspot.com.br/2011/01/adocao-tardia.html

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