08.01.2014
Por Guilherme Lima Moura
Às vezes, morro de rir com a impressão que causamos por aí. Um casal
com quatro filhos, uma escadinha dos quatro aos dez anos de idade, sendo
de apenas cinquenta e dois dias a diferença entre os dois mais velhos.
Uma incomum diversidade étnica. As pessoas olham, olham... E a gente
percebe que alguns não estão entendendo nada.
De vez em quando
um desses curiosos é mais afoito e não se contém. Lança-nos suas
perguntas, por vezes verdadeiros interrogatórios.
Numa dessas
ocasiões, passeávamos pelo calçadão da Praia de Boa Viagem, no Recife,
quando uma senhora que vendia petiscos me perguntou, um tanto quanto
impressionada: São todos seus filhos? Ante minha resposta afirmativa,
voltou à carga: Mas são seus mesmo?! Enquanto tentava dar continuidade
ao passeio, eu sorri e disse: Sim, são meus mesmo! Com toda a ênfase nos
esses de que ela tanto precisava. Seguimos nossa caminhada porque,
afinal, o dia estava lindo. Quando olhei pra trás, notei que ela ainda
nos observava com um rosto cheio de reflexão, enquanto íamos sumindo na
multidão daquele domingo.
Lembro também que, há alguns anos,
enquanto tomávamos o café da manhã em um hotel, uma funcionária que
recolhia pratos nas mesas olhava e olhava pra gente. E vinha, passava e
olhava. À certa altura, perguntou: São gêmeos? Como já havíamos ouvido
essa mesma pergunta trocentésimas vezes, meu filho Henrique, na época
com seis anos, antecipou-se e respondeu à garçonete: Não, não somos
gêmeos não. Somos irmãos. E retornou sua atenção às guloseimas, enquanto
seguíamos com nossa refeição tentando conter as risadas ante à
espontaneidade e segurança de quem se garante e queria, tão somente,
curtir seu momento sem ser incomodado.
Logo eu, que sempre
prezei por passar despercebido nos lugares. Embora meus quase dois
metros de altura nunca tenham me ajudado muito nesse desiderato. Ainda
assim, juro que durante boa parte da minha vida, consegui não ser o
centro das atenções. Pelo menos assim me pareceu, que é o que conta no
fim das contas.
De modo que, embora desejasse em alguns
momentos apreciar o simples e doce sabor da privacidade, confesso que,
quando estou de bom humor, termino me divertindo com essas situações.
É que a adoção trouxe para a minha vida uma exuberância tão especial
que a discrição se tornou coisa de outro mundo. Há tempos entendi que a
beleza que caracteriza minha família me imporia para sempre os olhares
dos que nos cercam, muitas vezes movidos por uma legítima curiosidade.
A verdadeira família adotiva é assim. Cheia de diversidade, inclusiva.
De tão bem resolvida, parece até que é exibida. Simplesmente porque se
fundamenta apenas na amorosidade, nos laços de afeto. É assim porque já
nasceu na convicção natural de que o amor é o bastante imprescindível
das famílias de verdade. Família que não tem isso é só amontoado de
gente, retrato de almoço de domingo.
Talvez por isso a adoção
produza com certa frequência famílias numerosas. Não que a quantidade em
si signifique algo, porque o amor é sempre e necessariamente um
fenômeno qualitativo e não quantitativo. Mas é que a adoção é,
sobretudo, disponibilidade afetiva. E, como o amor é dessas coisas
especiais que se multiplicam na medida em que são distribuídas, a
família adotiva é naturalmente aberta para mais e mais experiências no
campo da filiação. E olhe que ainda contamos com a vantagem adicional de
precisarmos de algumas poucas famílias amigas para garantir qualquer
quórum de festa de aniversário.
Sim, meus filhos são meus
mesmo. Assim decidimos que seria e assim renovamos todos os dias a nossa
decisão porque só existe filiação de verdade se existe amor. Sem
amor... Bem, sem amor nem é meu, nem é mesmo.
http://ne10.uol.com.br/coluna/ atitude-adotiva/noticia/2014/ 01/08/meus-mesmo-464202.php
08.01.2014
Por Guilherme Lima Moura
Às vezes, morro de rir com a impressão que causamos por aí. Um casal com quatro filhos, uma escadinha dos quatro aos dez anos de idade, sendo de apenas cinquenta e dois dias a diferença entre os dois mais velhos. Uma incomum diversidade étnica. As pessoas olham, olham... E a gente percebe que alguns não estão entendendo nada.
De vez em quando um desses curiosos é mais afoito e não se contém. Lança-nos suas perguntas, por vezes verdadeiros interrogatórios.
Numa dessas ocasiões, passeávamos pelo calçadão da Praia de Boa Viagem, no Recife, quando uma senhora que vendia petiscos me perguntou, um tanto quanto impressionada: São todos seus filhos? Ante minha resposta afirmativa, voltou à carga: Mas são seus mesmo?! Enquanto tentava dar continuidade ao passeio, eu sorri e disse: Sim, são meus mesmo! Com toda a ênfase nos esses de que ela tanto precisava. Seguimos nossa caminhada porque, afinal, o dia estava lindo. Quando olhei pra trás, notei que ela ainda nos observava com um rosto cheio de reflexão, enquanto íamos sumindo na multidão daquele domingo.
Lembro também que, há alguns anos, enquanto tomávamos o café da manhã em um hotel, uma funcionária que recolhia pratos nas mesas olhava e olhava pra gente. E vinha, passava e olhava. À certa altura, perguntou: São gêmeos? Como já havíamos ouvido essa mesma pergunta trocentésimas vezes, meu filho Henrique, na época com seis anos, antecipou-se e respondeu à garçonete: Não, não somos gêmeos não. Somos irmãos. E retornou sua atenção às guloseimas, enquanto seguíamos com nossa refeição tentando conter as risadas ante à espontaneidade e segurança de quem se garante e queria, tão somente, curtir seu momento sem ser incomodado.
Logo eu, que sempre prezei por passar despercebido nos lugares. Embora meus quase dois metros de altura nunca tenham me ajudado muito nesse desiderato. Ainda assim, juro que durante boa parte da minha vida, consegui não ser o centro das atenções. Pelo menos assim me pareceu, que é o que conta no fim das contas.
De modo que, embora desejasse em alguns momentos apreciar o simples e doce sabor da privacidade, confesso que, quando estou de bom humor, termino me divertindo com essas situações.
É que a adoção trouxe para a minha vida uma exuberância tão especial que a discrição se tornou coisa de outro mundo. Há tempos entendi que a beleza que caracteriza minha família me imporia para sempre os olhares dos que nos cercam, muitas vezes movidos por uma legítima curiosidade.
A verdadeira família adotiva é assim. Cheia de diversidade, inclusiva. De tão bem resolvida, parece até que é exibida. Simplesmente porque se fundamenta apenas na amorosidade, nos laços de afeto. É assim porque já nasceu na convicção natural de que o amor é o bastante imprescindível das famílias de verdade. Família que não tem isso é só amontoado de gente, retrato de almoço de domingo.
Talvez por isso a adoção produza com certa frequência famílias numerosas. Não que a quantidade em si signifique algo, porque o amor é sempre e necessariamente um fenômeno qualitativo e não quantitativo. Mas é que a adoção é, sobretudo, disponibilidade afetiva. E, como o amor é dessas coisas especiais que se multiplicam na medida em que são distribuídas, a família adotiva é naturalmente aberta para mais e mais experiências no campo da filiação. E olhe que ainda contamos com a vantagem adicional de precisarmos de algumas poucas famílias amigas para garantir qualquer quórum de festa de aniversário.
Sim, meus filhos são meus mesmo. Assim decidimos que seria e assim renovamos todos os dias a nossa decisão porque só existe filiação de verdade se existe amor. Sem amor... Bem, sem amor nem é meu, nem é mesmo.
http://ne10.uol.com.br/coluna/
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