sábado, 30 de março de 2013

Família Coragem

 Atitude adotiva

Publicado em 25.03.2013, às 19h26



Por Guilherme Lima Moura
Nós, pais adotivos, de vez em quando somos alvo de verdadeiras pérolas, como as clássicas “Gostaria de ter a sua coragem” e “Você é uma pessoa especial”. Nessas ocasiões, somos obrigados a lidar com um refinado tipo de preconceito: o que se disfarça de elogio. Geralmente quem fala está crente que está abafando. Mas nunca está.

Considerando, inclusive, que gestantes não costumam ouvir algo assim, o preconceito, filho da ignorância, subjaz em tais afirmativas como um dos grandes e persistentes mal-entendidos sobre a adoção, que é supô-la uma espécie de caridade. Não somos caridosos. Tornamo-nos pais porque desejamos ter filhos e entendemos que a adoção é um caminho legítimo para satisfazermos esse desejo. E assim entendemos porque descobrimos que só de uma relação afetiva pode nascer pais e filhos.

Quem imagina que uma família adotiva é resultado da coragem da caridade ou uma espécie de “projeto social” não entendeu ainda o verdadeiro sentido do fazer-se pai e mãe.

Por isso, sempre reagi com estranheza àquelas pérolas. E, em muitas vezes, respondi algo como “Coragem?! Não. É só amor sem coragem mesmo”. Isso porque sempre achei que corajoso é aquele que perde a chance de ter filhos. Claro, nem todo mundo está vocacionado para ser pai ou mãe, e bendito seja todo aquele que age em coerência com suas vocações (ou que desenvolve suas vocações em coerência com seus desejos). É que a busca por meus filhos decorreu desde sempre da minha natural vontade de ser pai. Então, coragem pra quê?

Mas eis que recentemente deparei-me com uma nova e inesperada variação daquela “joia não tão rara”. Quando chegávamos a certo local, mandaram-nos essa: “Chegou a família coragem!”. Sei bem que quem disse isso referiu-se em particular ao fato de minha esposa e eu termos quatro filhos, um número inesperado para os padrões de hoje. Mas, para mim, isso é um detalhe. Pais e filhos não se medem na quantidade. É fundamentalmente uma questão de qualidade. Ninguém é mais pai ou mãe porque tem essa ou aquela quantidade de filhos. Dou a cada um dos meus filhos a atenção que muitos filhos únicos não conseguem receber.

Só que, dessa vez, passei uns dias pensando nessa história de “família coragem”... Então, fui tentar entender que coragem é essa de que tanto se fala. Por que pais adotivos seriam pessoas corajosas?

Recorri ao livro A coragem de conviver, de Luiz Schettini, de onde extraí esse elucidativo trecho: “No amor o que valoriza a decisão não é a consciência de ter escolhido o apropriado, mas a certeza de que todas as outras possibilidades não se comparam à escolha que fizemos”. Em tal perspectiva o amor é entendido na sua acepção mais especial, qual seja a atitude de acolhimento pleno do outro. É o que poderíamos chamar aqui de um amor profundo.

Definitivamente, o amor profundo nada tem a ver com beneficência, filantropia ou altruísmo. Tampouco é aquele “amor qualquer” que tão facilmente dizemos sentir por um ou outro, mas que raramente revela-se na nossa ação para com eles. O amor profundo não é eventual ou seletivo, mas manifesta-se perene e independente de como seja ou do que faça o ser amado. É, portanto, incondicional e não se esgota nunca porque é um amor aceitação. E, sendo também um amor ação, consiste, por excelência, no cuidar de quem se ama. Fora disso é pura exortação descomprometida, discurso vazio e inconsistente.

Tornar-se pai e mãe de verdade é, por assim dizer, viver cotidianamente o amor profundo. É ter atitude adotiva porque só por meio dela nos movemos da vivência biológica à convivência afetiva. E isso não conseguimos sem abdicarmos um pouco de nós mesmo, sem experimentarmos uma espécie de renúncia prazerosa. Sim, porque, se não houver prazer, não é mais amor, é uma forma qualquer de obrigação ou dependência.

A esse respeito disse um homem que soube amar com profundidade: “Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos” (Mahatma Gandhi). É... Talvez seja preciso mesmo um tanto de coragem para nos tornarmos pai e mãe.
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