terça-feira, 26 de novembro de 2013

ADRIANA


Regina Helena Alves Silva

Fico pensando em todo mundo que nos ajudou desde que as crianças chegaram aqui em casa. Tem cada historia mais engraçada que a outra. Tem a da Juliana e a salvação da dupla de mães recentes as voltas com a primeira febre da Duda. Ligamos para a pediatra e ela nos disse: coloquem a menina na banheira e vão dando um banho de morno para frio.
Não tivemos dúvida: a colocamos na banheira e ligamos o chuveiro... Tadinha, ficava chorando enquanto nós, desesperadas, não sabíamos o que fazer. Juliana ligou na hora e falou: pára tudo, tô indo praí!!!
E ela chegou e nos ensinou a lidar com febres... mas também me ameaçou de ser a primeira a dar uma “roupa de oncinha” para minha filha!

Muitos amigos nos ajudaram com tantas coisas, Roger, Adair, Luiz Henrique sempre estão a postos quando precisamos de algo com o Pedro. Até no dia que ele emburrou no shopping e disse que só ia ao banheiro masculino, mesmo depois de nós mostrarmos a ele que todos os meninos entravam com suas mães no banheiro feminino com uma parte especial para crianças. Nossos amigos sempre estiveram a postos para todas essas “emergências” e para conversar, trocar ideias e falar de como viveram determinadas experiências com seus filhos.

Mas tem uma pessoa que se tornou amiga nesse processo todo da adoção de Duda e Pedro, a Adriana. Ela estava trabalhando na nossa casa havia pouco tempo quando as crianças chegaram. Foi ela quem, nos primeiros finais de semana que fomos autorizadas a trazê-los pra casa, nos ajudou com mamadeiras, fraldas, comida e banhos. Ela nos ajudou, e muito, quando tínhamos a insegurança de não saber muito bem como fazer com duas crianças, que nos olhavam com carinhas de medo e as vezes de surpresa por estarem na nossa casa.

Adriana está sempre onde precisamos, nunca nos faltou. É sempre uma pessoa atenta à casa e às crianças. Nossos filhos são amigos dos filhos dela que sempre chamamos para as festas ou então pro fim de semana de calor na piscina do prédio. Algumas pessoas do prédio nos olham meio que atravessado por causa da “mistura” que dizem que fazemos. Ontem resolvi comemorar meu aniversário um pouco atrasado mas para sair com uns amigos. Não levo nossos filhos a bares, não gosto disto, não é lugar para crianças ficarem. Deixamos Pedro e Duda com Adriana. Quando voltamos, eu fui levá-la em casa. Estávamos no elevador e entrou uma vizinha que estava dando uma festa no salão do prédio ela olhou e não viu Adriana, se virou e me cumprimentou. E continuou a “não ver” Adriana.

Eu sempre fico pensando no que leva as pessoas a serem assim. Porque fingir que as pessoas das quais dependemos, que são parte fundamental de nossas vidas, são invisíveis? Não da pra chamar isso só de preconceito, acho que é muito mais. Outro dia Adriana saiu aqui de casa no meio da tarde de um sábado, estava andando na rua quando viu dois rapazes se dirigindo a uma senhora idosa sentada no ponto do ônibus. Ela entendeu que eles iam assaltá-la e correu para avisar. Os rapazes fugiram e a mulher começou a gritar que a Adriana era “cúmplice dos ladrões”. Com certeza, isso é mais que preconceito.

Eu sempre digo que isso se chama ódio de classe. Somos uma sociedade escravagista e temos raiva dos escravos terem sido libertos. Não existe outra explicação para alguém não ver o outro no elevador. Na verdade, este é o segundo prédio que moro aqui no Sion que faz com que algumas pessoas subam pelo elevador “de serviço”. Eu sempre chamo os elevadores de “da frente” e “de trás”, mas aqui chamam um de “social” e o outro de “serviço”. Adriana sobe e desce no elevador “da frente”, o que causa um imenso mal estar em algumas pessoas.

No outro prédio que eu morei, chamaram a polícia para um orientando meu. Ele nem querer tocou a campainha do apartamento da frente do meu. Olharam pelo tal “olho mágico” e chamaram a polícia para ele. A polícia chegou e a vizinha disse que ele havia entrado em meu apartamento e que provavelmente eu era refém. Nesse, onde moro agora, logo que me mudei mandaram uma grande amiga subir pelo elevador “de trás”. Antes que alguém me diga que existe lei para isso, tenho que explicar uma coisa: tudo isso é feito pelos funcionários do prédio, que recebem ordens nunca explícitas e nunca assumidas. Tudo muda, os moradores, os síndicos, mas existem essas “ordens” que nunca ninguém deu mas que continuam a vigorar.

É neste lugar que Adriana trabalha. No nosso pedaço, o mundo parece outro porque ela é a madrinha dos nossos filhos, o anjo que nos ajuda a cuidar deles. Ela é nossa diarista, vem duas vezes por semana e é também a babá das crianças quando precisamos. Nunca chamamos nenhuma outra porque eles confiam nela e não sentem medo de nada quando estão com ela. Quando tivemos uma empregada doméstica por algum tempo, logo que eles chegaram, ela precisou ir embora para outra cidade. Eles ficaram muito atrapalhados com isso. Pedro, no dia que ela se despediu deles, me perguntou se nós íamos levá-los de volta ao abrigo. Com Adriana, eles sabem que ela não irá embora deles. Que ela é da família assim como suas avós, tias e primos. Assim como nossos amigos, que sempre estão conosco.

Este mundo Brasil, no qual vivemos, torna pessoas assim invisíveis, como se fosse possível não ver Adriana. Lutamos há tanto para que isso se acabe mas permanece nos lugares mais fundos das almas de quem não as tem. Não sou religiosa, mas tenho certeza que algumas pessoas têm alma, ou auras, ou luz, ou energia boa, ou tantas formas de dizer que no mundo tem muitas Adrianas e é isso que me faz um pouco mais feliz ao pensar o futuro dos meus filhos neste lugar.

Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.
http://www.bhdameninada.com.br/#!adriana/c20dv

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